Ttulo: O templo do amor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1984.
Ttulo Original: Moments of Love.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
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Barbara Cartland
O templo do amor
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo original: "Moments of Love"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1982
Traduo: Diogo Borges
Copyright para a lngua portuguesa: 1984
Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi cometa na Linoart Ltda. e
impressa na Eora Parma Ltda.

CAPITULO I
1880

Lady Simonetta Terrington-Trench subiu os degraus da entrada da grande
manso e entrou no imponente hall assoalhado de mrmore, passando pelos
dois criados que estavam de servio.
Eles conversavam em voz baixa at o momento em que ela apareceu e, assim
que a viram, endireitaram-se, assumindo aquele ar de respeito que se
espera de um servial.
- Onde est o senhor duque? - perguntou lady Simonetta, passando
rapidamente por eles.
- No escritrio, milady - informou um dos criados.
Lady Simonetta no disse nada e era de duvidar que tivesse ouvido a
resposta do criado, pois perguntara j tendo a certeza de que encontraria
seu pai, como sempre, mergulhado em seus papis.
Percorreu um comprido corredor, decorado com armaduras e escudos, que
vinham de um tempo remoto, quando os Trench estavam continuamente em
guerra, com seus inimigos ou com os inimigos de seu pas.
Abriu com rudo a porta do escritrio e, conforme esperava, surpreendeu
seu pai sentado  escrivaninha. Ele no escrevia, mas colocava alguns
documentos numa pasta. Surpreendido, levantou o olhar, curioso de saber
quem o interrompia, e sorriu.
O duque amava profundamente sua nica filha, que se tornava cada dia mais
bela.
Ele era um bonito homem, famoso por saber reconhecer uma bela mulher.
Assim, quando olhou sua filha pensou, com um aperto no corao, que era
apenas uma questo de tempo at Simonetta casarse com um esposo  sua
altura e retirar-se de sua companhia.
- Papai, quero que voc veja o que acabo de pintar! -ela disse, toda
animada. - Tenho certeza de que voc o apreciar mais do que tudo que fiz
at agora.
A jovem estendeu uma tela para seu pai, que a examinou com ateno,
notando os menores detalhes. Simonetta o olhava com ansiedade,  espera
de sua opinio.
- Est muito bom! , sem dvida, o que voc fez de melhor! Conseguiu
capturar a luz com muita felicidade, e eu no conseguiria fazer igual.
- Voc est falando srio, papai? Acha de fato que est bom?
- Muito bom! - declarou o duque.
- Como fico contente! Sei que voc ficou decepcionado com meu ltimo
quadro. Subitamente senti que este aqui sairia bom, como se algum
estivesse guiando minha mo, enquanto eu pintava!
-  o que sempre esperamos que acontea - disse o duque, rindo. - Tudo,
porm, depende unicamente de nossos esforos para chegarmos perto da
perfeio.
Simonetta sorriu, pois entendia muito bem o que seu pai dizia. De repente
olhou para a pasta em cima da escrivaninha do duque e ficou muito
surpreendida.
- O que voc est fazendo? Pretende viajar? O duque evitou seu olhar e
ela prosseguiu.
- Oh, papai! Voc no pode deixar-me agora! Justamente neste momento h
tantas coisas to excitantes para serem pintadas no jardim!
- Devo ausentar-me apenas por duas semanas e sua tia Harriet ficar
tomando conta de voc.
- No  possvel! Julguei que voc sabia que tia Harriet mandou um
bilhete por um criado, ontem, dizendo que infelizmente teve de ir para
Londres e no vir para c, conforme esperava.
- Por que no me disseram isto ontem  noite? - perguntou o duque,
contrariado.
- O bilhete estava em cima de uma bandeja, no hall, e, como se encontrava
aberto, pensei que voc o tivesse lido.
- Agora me lembro! Recebi o bilhete e, antes que pudesse tomar
conhecimento dele, fui chamado para cuidar de um outro assunto.
- Ser que... eu no poderia acompanh-lo? - perguntou Simonetta com
timidez.
- No, claro que no. Vou para a Frana.
- De novo? E onde vai pintar desta vez?
- Vou at a Provena - disse o duque, um pouco sem jeito. Aluguei uma
casinha num lugar chamado Ls Baux. Disseram-me que a luz de l 
diferente de tudo o que se conhece.
- J ouvi falar. Ls Baux  um dos mais belos lugares que existem na
Frana.  a regio dos trovadores medievais, que escreviam os poemas e
canes apresentados nas cortes.
- Isso j faz tanto tempo...
- Eu sei, mas as runas ainda existem, entre as rochas vulcnicas. Daria
tudo para conhec-las.
O duque voltou a sentar e amassou alguns papeis.
- Quem sabe voc ir at l um dia... Encontrei alguns amigos pintores,
que no tm a menor ideia de quem eu sou. Sabem apenas que tento copiar
este novo estilo d arte.
- Tenho certeza de que l eles o consideraro um timo pintor
impressionista, papai. Ningum na Inglaterra apreciar seu trabalho, da
mesma forma que no apreciam o que seu amigo Claude Monet est fazendo na
Frana.
Fora justamente Claude Monet o primeiro a inspirar o duque, que procurava
imitar o estilo impressionista de pintura. Monet tinha estado
recentemente na Inglaterra e o duque o conhecera numa exposio. Por mais
estranho que pudesse parecer, logo se tornaram grandes amigos.
Monet no era to controvertido quanto alguns impressionistas, mas suas
telas costumavam ser recusadas nos sales aos quais concorria.
Simonetta sabia que seu pai apreciava demais passar de vez em quando uma
ou mais semanas em Paris, a fim de se encontrar com os pintores
impressionistas que Claude Monet lhe apresentara.
O duque era aceito por eles como um pintor e no como um aristocrata.
Ademais, viajava sob um nome falso. Ningum, a no ser Monet, tinha ideia
de sua importncia na Inglaterra.
Como amava toda manifestao de arte, Simonetta tentava copiar o estilo
que seu pai tanto admirava. Ele lhe falava muito a respeito dos
impressionistas e de seu trabalho, a ponto de ela tornar-se uma discpula
dedicada do estilo que Monet e seus amigos tentavam divulgar.
Simonetta, em um tom de voz a que seu pai dificilmente resistia, dirigiu-
lhe uma splica.
- Por favor, papai, leve-me com voc... pelo menos desta vez, sim? Caso
contrrio terei de ficar sozinha, pois tia Harriet no pode vir.
- No posso deix-la sem ningum. Voc ter de ir para a casa de uma de
suas tias. Sabe muito bem que Louise est sempre disposta a receb-la.
- Recuso-me terminantemente a ir para a casa de tia Louise! No momento em
que chegar l, ela comear a fazer perguntas sobre todos os rapazes que
conheo e tentar me apresentar a mais um dos seus protegidos,
pretendendo que eu me case com ele.
O duque ouvia sua filha com a maior ateno. Sabia muito bem que Louise
estava sempre querendo arranjar casamentos e no tinha a menor vontade de
pressionar sua filha ou for-la a desposar algum a quem no amasse.
Ao contrrio da maior parte dos aristocratas, cujos casamentos obedeciam
a convenincias de famlia, o duque tinha se casado por amor.
Aps a morte da duquesa, ocorrida havia oito anos, quando Simonetta
contava apenas dez anos, ele se permitiu ser consolado por muitas
daquelas belas senhoras que sempre o tinham achado um homem extremamente
atraente, mas permanecia vivo.
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Assim, porque acreditava no amor, no tinha a menor inteno de
pressionar seus filhos, obrigando-os a se casarem, e estava mais do que
decidido a deixar sua filha, a quem adorava, seguir os impulsos do
prprio corao.
Simonetta, conforme percebia, parecia-se cada dia mais com a me e, ao
mesmo tempo, tornava-se to bela quanto a figura do quadro de onde tinha
vindo a inspirao de seu nome.
Foi durante a lua-de-mel em Florena que o duque e sua mulher
contemplaram o lindo quadro de Botticelli, na Galeria Uffizi, e a duquesa
fez uma observao:
- Clyde, meu amor, se um dia tivermos uma filha, rezarei para que ela
seja to bela quanto essa Vnus.
- O modelo de Botticelli foi Simonetta Vespucci - disse o duque. - Este
sempre foi meu quadro favorito e quando o vi pela primeira vez julguei
que voc se parecia com a figura central da tela.
- Voc no podia ser mais lisonjeiro. Um dia eu o presentearei com uma
Simonetta em carne e osso!
Eles tiveram trs meninos e, quando a duquesa j se desesperanava de ter
outros filhos, Simonetta nasceu.
O fato de ela ter cabelos dourados como a Simonetta de Botticelli, de
seus traos serem perfeitos, de seus olhos, to azuis, e a expresso
suave como a Vnus pareceu um verdadeiro milagre ao duque e  duquesa.
No entanto, ao contemplar sua filha, o duque sentia algumas vezes que a
beleza pode ter graves consequncias. Sem a esposa para ajudlo, temia o
que pudesse acontecer com Simonetta, agora que ela se tornara uma moa.
- Papai, papai, por favor! - ela suplicava.
Simonetta sentia que, apesar do silncio, o duque voltaria atrs em sua
deciso de no lev-la para a Frana.
-  impossvel, pois voc sabe muito bem que viajo s escondidas, minha
filha - ele declarou.
- Mas eu posso perfeitamente fazer o mesmo!
- No posso chegar com uma filha de quem nunca falei e para ser franco,
meu bem, alguns dos pintores que encontrarei em Ls Baux no so o tipo
de homens que deveria apresentar-lhe.
- Mas eu estarei segura em sua companhia, papai. Se o fato de estar
acompanhado de sua filha pode prejudic-lo de alguma maneira, passarei
por outra pessoa.
Ocorreu de repente ao duque que, se chegasse na companhia de uma linda
jovem, o fato de modo algum surpreenderia seus amigos impressionistas!
Eles certamente desconfiariam do tipo de interesse que o duque
manifestava por ela.
- J sei! - exclamou Simonetta. - Irei como sua aluna! Todos os grandes
pintores tm discpulos. Ningum acharia estranho que lhe acontecesse o
mesmo.
- Aluna? - repetiu o duque, intrigado.
- Por que no? Voc lembra muito bem que, ainda recentemente, comentamos
o fato de Rubens e Rembrandt terem dezenas de alunos que os auxiliavam em
seu trabalho e copiavam seu estilo da melhor forma que podiam.
- Mas isso era diferente. Rubens e Rembrandt eram pintores extremamente
populares e tinham tantas encomendas que no conseguiam completar todos
os detalhes de suas pinturas.
- Por que voc no  otimista e pensa que isso lhe acontecer dentro de
alguns anos? Ento eu lhe serei muito til!
- Voc est tentando convencer-me a fazer algo que no devia
- disse o duque, rindo. - Francamente, Simonetta, por mais que me
pressione, no tenho a inteno de lev-la comigo.
- E quer que eu fique com tia Louise? Muito bem, quando voltar ir
encontrar-me noiva de algum marqus desenxabido ou de algum prncipe
pretensioso e a culpa ser toda sua.
- Acho ridculo voc falar desse jeito. No tenho a menor inteno de
permitir que voc se case enquanto no tiver a oportunidade de encontrar
um homem que a faa muito feliz.
- No momento s me sinto feliz em sua companhia, papai. Simonetta
aproximou-se, abraou seu pai e encostou o rosto no
dele.
- Por favor, leve-me com voc, papai! Ser to divertido viajarmos
juntos... Prorheto que farei exatamente o que voc me disser e no me
envolverei com pessoas a quem voc desaprovar! - No
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houve resposta e a jovem abraou o duque com mais fora. - Voc tomar
conta de mim e sei que mame gostaria que eu tomasse conta de voc.
- Muito bem - disse o duque, capitulando. - Eu a levarei comigo. Se
surgir algum problema ou algum fato desagradvel, eu a trarei de volta
imediatamente. Estamos entendidos?
Simonetta no respondeu logo, pois beijava seu pai, entusiasmada.
- Obrigada, papai! Obrigada! Eu o amo e passaremos momentos muito
agradveis.
Ao viajar para Paris, Simonetta participava de uma aventura que lhe
parecia mais excitante do que tudo o que tinha feito at ento.
No passado, quando seu pai se ausentava, ela era entregue aos cuidados de
uma governanta ou de uma parente mais velha, que passava o tempo fazendo
sermes ou censurando-a pelas menores coisas.
Seu pai significava tudo para ela e contava nos dedos os dias que
faltavam para seu regresso. Esperava durante horas, espiando a estrada, a
fim de notar os primeiros sinais da carruagem que o transportava de volta
para casa.
Aps o tdio e a monotonia de lies e mais lies, passava o dia na
companhia do pai, montando a cavalo, pescando no lago e jantando em sua
companhia.
Foi o duque a primeira pessoa a lhe falar da luz que os pintores
impressionistas tinham introduzido em seus quadros e que, para ele,
alterou toda sua concepo da arte.
Simonetta ouvia-o com ateno e em seguida tentava imitar o modo como ele
pintava e que ela admirava com a sinceridade de uma criana. Apreciava
muito mais o que ele fazia do que os quadros dos grandes mestres,
pendurados nas paredes de sua casa.
Os antepassados da famlia tinham contribudo para formar uma grande e
importante coleo, famosa em todo o mundo.
No era nada surpreendente que o duque, criado entre alguns dos mais
belos quadros existentes em sua poca, tivesse se tornado um pintor. No
entanto, sua atividade no passava de um passatempo, e somente algumas
pessoas de sua famlia julgavam aquilo interessante.
Ele mesmo tinha uma relao um tanto superficial com a arte, at ficar
conhecendo o grande pintor Claude Monet. Depois disso visitara
Paris, envolvendo-se com um mundo cuja existncia ignorava at ento.
O que tornava a coisa mais excitante era o fato de ter conhecido os
pintores impressionistas no na qualidade de duque, mas simplesmente como
um pintor iniciante, com quem todos poderiam falar em termos de
igualdade.
Antigamente, quando viajava a Paris, o duque hospedava-se com seus
distintos amigos franceses e era levado a reunies da alta sociedade,
festas e bailes, alm de frequentar as caras e fechadas "Casas de
Prazer".
Os impressionistas, por outro lado, conversavam sem cessar em cafs
baratos, bebiam grandes quantidades de absinto e se queixavam de no
serem aceitos e apreciados.
O duque encontrou muita coisa em comum com os pintores mais destacados, a
quem foi apresentado por Monet.
Surpreendia-se desejando aquelas viagens, como se elas significassem um
osis no deserto. Era ento um artista, que lutava ao lado de outros, e
podia pr de lado suas responsabilidades, impostas pelo alto ttulo de
nobreza que tinha herdado.
Agora, no confortvel compartimento reservado por ele, no trem em que
viajavam em direo  capital da Frana, o duque olhou para Simonetta,
refletindo se no tinha sido um tanto imprudente em lev-la em sua
companhia.
Era uma pergunta que tinha se feito vrias vezes, antes de concordar com
a atrevida sugesto de sua filha, que desejava acompanh-lo como se fosse
sua aluna.
Concordava que Simonetta tinha toda razo, ao insistir que tia Louise no
era a pessoa mais indicada para ficar lhe fazendo companhia, quando ele
viajasse.
O duque tinha,  claro, numerosas parentas e sentiria grande prazer em
deixar sua filha com elas, mas essas providncias levavam muito tempo
para serem tomadas.
A casa na Provena tinha-lhe sido cedida por um perodo limitado,
enquanto o proprietrio estivesse ausente, e ele, de modo algum, queria
desperdiar aquela oportunidade.
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O dono da casa, colecionador de arte e amigo de Monet, era um homem que
apreciava muito o conforto. O. duque tinha certeza de que a casa, apesar
de pequena, haveria de lhe proporcionar todas as comodidades.
Certamente seria melhor do que ficar hospedado em algum hotel pequeno e
barato, na companhia de outros pintores que dividiam os quartos.
Tinha a firme inteno de pintar, quando chegasse a Ls Baux, mas achava
muito agradvel, aps o pr-do-sol, conversar com seus colegas a respeito
de pintura, um assunto que tanto o interessava.
Tentou acalmar seus escrpulos, dizendo a si mesmo que ningum saberia ou
adivinharia que ele e Simonetta no eram o que aparentavam.
Tudo aquilo parecia extremamente excitante para Simonetta. Era como
decifrar uma charada ou representar um espetculo no pequenino teatro que
havia na imensa propriedade do duque.
O duque tinha opinies muito definidas sobre qual deveria ser a aparncia
de sua filha durante a viagem.
- Voc dever parecer respeitvel, mas modesta, Simonetta. Est por
demais interessada na arte para importar-se com seus vestidos.
- No ser nada fcil, papai! - disse a jovem, rindo. - Todos meus
vestidos custaram muito dinheiro e, apesar de um homem no se deixar
impressionar por eles, as mulheres repararo.
- Voc ter de encontrar roupas apresentveis, caso contrrio no a
levarei comigo - disse o duque com firmeza.
- No se incomode, papai. Prometo que voc no se decepcionar - declarou
Simonetta, com um brilho malicioso no olhar.
No foi nada fcil, mas ela acabou por encontrar vrios vestidos da maior
simplicidade, j um tanto usados, feitos pela costureira que trabalhava
no castelo.
- Mas para que a senhorita vai querer esses trapos? - perguntou a
habilidosa sra. Baines. - Se fossem meus j os teria dado a um orfanato.
 - Vou tomar parte numa pea, enquanto estiver viajando com
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papai - explicou Simonetta. - Represento o papel de uma jovem que precisa
ganhar a prpria vida.  claro que no fim ela acaba casando com o
prncipe encantado.
- Nesse caso ter muitos vestidos  sua disposio para a cena final.
Os velhos vestidos de Simonetta foram reformados e a jovem usou da
imaginao, pedindo  costureira que lhe fizesse um casaquinho azul de
veludo que, na sua opinio, provocaria a admirao dos artistas amigos do
duque.
Quando chegou o dia da partida, Simonetta tinha uma mala cheia de roupas
e, ao v-las, o duque reconheceu que elas no chamariam muito a ateno.
No entanto, tais trajes tornavam-se muito valorizados, quando a jovem os
vestia. com seus estranhos cabelos avermelhados e os olhos muito azuis,
qualquer coisa ficava sensacional nela, por mais barata ou simples que
fosse.
O duque e sua filha partiram bem cedo, indo diretamente para o palacete
de Londres, que no momento estava fechado.
O duque pretendia reabri-lo quando Simonetta fosse apresentada  rainha,
aps o que planejava oferecer um baile.
Enquanto ele estava em sua propriedade, apenas alguns velhos criados
tomavam conta do palacete. Estes ficaram muito surpreendidos ao ver o
duque e Simonetta, sentindo-se aliviados ao saberem que seu senhor
pretendia ficar em Londres apenas um, ou dois dias.
Quando os patres partiram levavam apenas duas malas, e tinham uma
aparncia completamente diversa daquela que ostentavam, quando chegaram
do castelo.
O duque dispensou sua carruagem e pegaram um veculo modesto, que os
levou at a estao. Comunicou a sua filha que, da por diante, era como
se eles estivessem representando em um palco.
- Esqueceremos nossas verdadeiras identidades e vamos identificar-nos com
os personagens e as personalidades que assumimos disse o duque.
- Farei o possvel, papai! - disse Simonetta, sorrindo.
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Pretendo ficar muito  vontade, at chegarmos ao fim da viagem,
mesmo que algumas pessoas achem que somos um tanto estranhos
para ocuparmos a primeira classe...
O duque era muito elegante e bonito e Simonetta achou que seria
impossvel que algum pudesse deixar de consider-lo um verdadeiro
cavalheiro.
Notou, porm, que o tratavam de modo muito diverso, quando ele se
anu nciava como o sr. Calvert, do que quando usava seu ttulo de duque de
Faringham.
O chefe da estao, por exemplo, vestido em seu pomposo uniforme, no os
acompanhou at o trem, e no foram levados at a bordo do navio pelo
oficial que comandava o porto.
Um carregador localizou os lugares que eles tinham reservado no trem e
agradeceu em francs a gorjeta que o duque lhe deu, retirando-se
rapidamente.
No havia funcionrios, secretrios e criados para cuidar do conforto
deles, mas Simonetta achava que seu pai apreciava tamanha liberdade, pois
agora tinha total independncia de movimentos.
- Voc at parece um estudante que est partindo de frias, papai!
- ela caoou.
- Sou vigiado, comentado e espionado todos os dias, Simonetta. Reconheo
que acho muito divertido ser um homem comum, no meio de homens igualmente
comuns.
- Para mim tudo isto  tambm muito excitante!
- Comporte-se! Caso contrrio no terei o menor remorso em lev-la
imediatamente de volta para casa, pois reconhecerei que cometi um erro,
ao permitir que voc viajasse comigo.
- Papai, voc sabe to bem quanto eu que gosta de minha companhia. Para
mim tudo isto no passa de uma aventura maravilhosa! Acha-me
suficientemente bonita para ser sua aluna?
O duque tinha vontade de dizer que ela era bonita demais, mas julgou que
Simonetta poderia ficar envaidecida.
- Acho que voc tem uma boa aparncia - limitou-se a declarar. Ele j
tinha decidido que sua filha ficaria em casa,  noite, e no
iria  taverna ou aos outros locais que os pintores escolhiam para
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seus encontros, quando ficava escuro demais para continuarem a trabalhar.
Sabia que Simonetta ficaria feliz na companhia de um livro. Alis, suas
tias e governantas sempre se queixavam de que ela lia em excesso.
- Ficarei com ela a maior parte do tempo - decidiu o duque. No entanto
seria um erro ela misturar-se com meus amigos, que so gente um tanto
esquisita... Deve permanecer em casa e ficar lendo.
Simonetta era inteligente, estimulava-o e, quando conversava com ela,
muitas vezes chegava a esquecer que aquela garota no pertencia  sua
gerao.
O duque gostava muito de seus filhos, e unia-os os mesmos interesses nos
esportes, sobretudo no que se referia ao tiro e  equitao. No entanto,
com Simonetta a afinidade existia em torno de assuntos mais intelectuais
e espirituais, com os quais jamais tinha conversado com qualquer outra
mulher, a no ser sua esposa.
O duque contemplou o delicado perfil de sua filha recortado contra a
janela e sentiu-se preocupado com o que aconteceria a ela no futuro.
Experimentava uma certa angstia, pensando no caso de algum vir a torn-
la infeliz, um dia.
Mais do que ningum percebia o quanto Simonetta era sensvel e intuitiva.
Ao mesmo tempo, ela possua um bom humor adorvel.
Serei capaz de matar qualquer homem que a magoe, pensou.
Tentou convencer-se de que ela ainda era jovem demais para preocupar-se
com os homens, mas reconhecia que, quando ela comeasse a frequentar a
sociedade, chamaria a ateno e ento comeariam todos os problemas.
O duque suspirou, pois encarava o futuro com apreenso. No momento tinha
Simonetta s para si. Era o nico homem de sua vida, o homem a quem ela
admirava e no possua rivais.
O trem prosseguia em seu trajeto e j estava ficando tarde. Simonetta
abriu a cesta de piquenique que tinham trazido do palacete.
- H aqui coisas deliciosas para comer, papai. Peito de galinha, pat,
presunto e uma garrafa de champanha.
- Eu a abrirei imediatamente! Agora voc  uma moa bem crescida e
imagino que tambm haver de querer beber.
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S se for para levantar um brinde  nossa aventura. Para falar
com franqueza, prefiro limonada, alm dos marrons-glacs, que adoro.
Espero que tenham deixado uma boa cozinheira na casa em
que nos hospedaremos. A comida, nas hospedagens francesas, costuma ser
encharcada de alho e alm do mais duvido que aprecie pernas de rs, um
dos pratos que fizeram a Provena famosa.
- Acho que  uma tolice da parte dos ingleses recusarem um prato, s
porque ele  diferente - observou Simonetta. - Estou decidida a comer
pernas de rs, caracis e trufas e somente no os aceitarei se o gosto
for ruim.
- Acho muito sensato de sua parte, minha filha, mas ao mesmo tempo sou de
opinio que no adianta forar uma pessoa a fazer algo, s porque se
trata de uma novidade.
Enquanto falava, o duque pensava que, talvez por serem diferentes das
pessoas a quem ela tinha conhecido at ento, Simonetta possua uma
concepo idealizada dos pintores.
Agora o duque recordava certos fatos a respeito de seus amigos artistas,
alguns dos quais com certeza estariam em Ls Baux! Entre eles havia
alguns de moral um tanto frouxa e, sob o ponto de vista de uma senhora,
eram pessoas indesejveis...
No devia ter trazido Simonetta, pensou o duque pela milsima vez.
Agora, porm, era tarde demais para arrependimentos. Por outro lado,
seria uma crueldade sem nome deix-la em Paris com alguma respeitvel
famlia francesa, junto a quem ela, sem dvida, se entediaria demais, ou
envi-la de volta  Inglaterra, para ficar com sua irm Louise.
O duque encheu as taas e levantou um brinde.
- A ns dois, minha filha, e que tenhamos timas frias!
- Sei que isso acontecer, papai. Levanto um brinde a voc, um pintor
impressionista e o homem mais adorvel do mundo!
- Obrigado!
Pai e filha sorriram um para o outro com uma compreenso que julgariam
impossvel explicar em palavras. Passaram a noite em Paris, em um hotel
tranquilo nas imediaes
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do Bosque de Boulogne, muito diferente das casas em que o duque se
hospedava quando viajava com o luxo de seu nome.
Naquelas ocasies uma confortvel carruagem com cocheiro e criado o
esperava na estao, levando-o diretamente para uma imponente manso no
elegante bairro do Champs Elyses, ou para o apartamento de algum amigo,
que o hospedava com prazer.
L encontraria um anfitrio amvel que o aguardava, uma grande quantidade
de convites para festas e seria levado para jantar na casa de algum
aristocrata ou em um dos restaurantes da moda.
O duque se veria no meio da elite de Paris, que se fazia acompanhar
no apenas de suas esposas, mas de suas amantes atraentes, cobertas de
jias, que faziam a fama da cidade mais alegre da Europa.
A comida seria de altssima qualidade e o vinho, excelente. O duque sabia
exatamente como a noite terminaria!
Da ltima vez que estivera em Paris lembrava-se muitssimo bem da
encantadora mulher com quem tinha passado muito tempo... Sentiu-se
atrado por ela pois seus cabelos, de certa forma, recordavam os de sua
mulher.
Desta vez a viagem seria muito diferente e a alegria e o companheirismo
reinariam em todos os momentos.
Para Simonetta tudo era novo e muito excitante.
A capital da Frana era exatamente como ela imaginava.
As casas com suas janelas cinzentas, as rvores nos grandes boulevards,
as pessoas sentadas nos cafs, os lampies de gs que brilhavam, tudo
contribua para um clima de exaltao, que ela no conseguia explicar com
muita exatido.
Tomaram o caf da manh na saleta da sute em que se hospedavam, antes de
partirem, mas Simonetta no conseguiu comer nada, pois ficava correndo
at a janela, para ver as pessoas passarem, ou apenas para contemplar os
tetos acinzentados, por cima das rvores.
- Paris  to bela, papai! Gostaria de ficar por aqui durante algum
tempo.
- Eu a trarei a Paris uma outra vez e ento voc a ver em toda sua
glria - prometeu o duque. - Passear no Bosque de Boulogne,
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em uma elegante carruagem, e comparecer a uma recepo no palcio
presidencial.
- Isso no me parece to excitante quanto aquilo que estamos fazendo
agora. Gostaria, porm, de sentar em um dos cafs e, hoje  noite, bem
que poderamos ver as danarinas em um desses cabars famosos, de que
tanto ouvi falar.
- De modo algum! - declarou o duque com firmeza. - Acho melhor voc pr o
chapu e fechar direito a mala. Caso contrrio acabaremos por perder o
trem.
- J tinha esquecido de que sou eu mesma que tenho de fazer tudo isto! -
comentou Simonetta, rindo.
Achou esquisito ter de agir sem a ajuda de uma criada. Seu pai fazia
muito bem em ter dispensado os servios de Jarvis, que era seu criado
pessoal havia muitos anos e sempre se comportava como uma bab rabugenta.
Jarvis, com toda certeza, no combinaria com esta viagem, pensou
Simonetta, sorrindo.
Fechou a mala e ps um chapu muito simples, enfeitado apenas com uma
fita, protegendo-se com uma capa leve, azul-marinho.
Se o duque queria que ela passasse despercebida, seu plano falhou, pois
aquela roupa era perfeita, no sentido de que valorizava seus cabelos
avermelhados e a pele muito alva.
- Acho que estou bonita - disse Simonetta, olhando-se no espelho.
Sentiu um pouco de vergonha por ser to convencida e fez uma pequena
careta que, com toda certeza, no seria aprovada por nenhuma de suas
governantas.
Voltou em seguida para a saleta e anunciou a seu pai que estava pronta.
- Tenho lugares reservados, mas espero que as pessoas que iro at Ls
Baux no nos vejam - comentou o duque, assim que chegaram  estao. -
Temos de fazer baldeao em Arles.
- Mas o que h de errado em reservar um vago, papai?
- Nada, s que  algo que est fora das possibilidades de um pintor
impressionista que no vendeu sequer um quadro nos ltimos seis meses.
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- E ns devemos aparentar que vivemos daquilo que ganhamos?
- perguntou Simonetta, rindo.
- Caso algum se mostre curioso, temos de confessar que vivemos de uma
pequena renda.
- Mas de onde vem essa renda?
- No tenho a menor ideia!
Ambos caram na risada. De qualquer modo, era um alvio terem um vago s
para eles dois.
A cesta de piquenique, que tinham encomendado no hotel, continha coisas
to saborosas quanto as que apreciaram na vspera, e, alm do mais, havia
uma garrafa de clarete, que o duque achou excelente, e do qual Simonetta
provou um ou dois goles.
Partiram cedo, mas a viagem at Arles era longa.
Quando chegaram  pequenina estao, Simonetta sentia-se cansada e o
duque cochilou vrias vezes durante a tarde.
- No d mais para prosseguirmos - ele decidiu. - Dormiremos aqui e
iremos para Ls Baux amanh de manh.
Simonetta estava fatigada demais para discutir e foram para o que parecia
ser o melhor hotel da cidade. Deram-lhes dois quartos pequenos e pouco
confortveis, pois o estabelecimento estava lotado.
- O que est acontecendo para haver tanta gente na cidade? indagou
Simonetta.
- Talvez uma tourada - explicou o duque.
- Uma tourada! - exclamou Simonetta, horrorizada. - Sempre me pareceu um
esporte cruel e desagradvel.
- E  mesmo, mas os touros, nesta regio, so criados para lutar. Voc
no conseguir convencer em contrrio os habitantes da regio. Eles
jamais desistiro de um esporte tradicional, que data do tempo dos
romanos.
- No sinto a menor vontade de v-lo.
- Eu tambm no e, portanto, voc no precisa preocupar-se. Devido ao
cansao, Simonetta no se incomodou com mais nada e
adormeceu.
Pela manh, enquanto o duque esperava que trouxessem o caf da manh,
Simonetta entrou em seu quarto.
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yoc sabe que aqui existe um anfiteatro to belo quanto o Coliseu de
Roma? Precisamos visit-lo!
Sem dvida! Temos tempo de sobra e visitaremos todos os monumentos, antes
de continuarmos nossa viagem.
Voc est falando srio, papai? Como  gentil! Talvez j conhea tudo
isso, mas para mim  muito excitante.
Creio que Ls Baux lhe provocar o mesmo sentimento.
Nesse momento a criada chegou com o caf da manh e Simonetta foi espiar
pela janela. Contemplou a rua estreita, alm das casas muito antigas,
repletas de gente. Era estranho, pois tinha a sensao de que aquelas
pessoas tinham vindo de um planeta diferente.
Teve a impresso de que estava para se iniciar algo de novo e estupendo
em sua vida. Era como se o fado ou o destino estivessem lhe acenando com
novas promessas.
Sabia que, de agora em diante, descobriria outros horizontes, de cuja
existncia sequer suspeitava. Novas ideias flutuavam no ar e ela no
conseguia apreend-las, mas tinha perfeita conscincia delas.
Era uma sensao muito estranha e Simonetta disse a si mesma que uma
cortina se levantava. Comeava a viver de um modo que jamais tinha
acontecido.
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CAPITULO II

- Tudo isto  muito excitante para mim! - disse Simonetta enquanto
partiam na carruagem aberta puxada por dois cavalos.
- Sinto o mesmo e, o que quer que acontea, ser uma aventura que ns
dois compartilharemos - observou o duque com um sorriso.
- Que aventura sensacional! - exclamou outra vez Simonetta, pegando
carinhosamente na mo de seu pai, que ficou comovido.
Viajavam em direo a Ls Alphilles, uma regio montanhosa e selvagem,
onde se erguia Ls Baux, lugarejo aninhado no topo de uma colina rochosa.
Assim que se afastaram de Arles, Simonetta comeou a apreciar a paisagem,
to diferente de tudo o que tinha visto at ento.
De um lado da estrada, ocultas por altas cercas vivas, estavam as
plantaes de lavanda, uma planta tpica da Provena, que se espalhavam
por entre as amendoeiras. Mais adiante, estendiam-se os trigais, os
capinzais muito verdes, os vinhedos e as oliveiras de um cinzaesverdeado.
- Como tudo isto  belo! No acha, papai?
Sabia que seu pai encarava quilo tudo com olhos diferentes, procurando
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estudar a intensidade da luz, conforme recomendavam seus amigos
impressionistas.
Um deles, Claude Monet, tinha se tornado o lder da nova escola de
artistas e, segundo ele, a pintura devia ser exercida inteiramente ao ar
livre.
- Luz e cor nos foram dadas por Deus - dizia a quem queria escut-lo - e
por que haveramos de recusar to belo presente?
No incio suas ideias pareciam revolucionrias, mas ele atraiu Edouard
Manet e Renoir e estes passaram a adotar suas concepes de pintura.
Assim, olhando a paisagem em torno, o duque conseguia entender que a
Provena atrasse os pintores desse grupo mais do que qualquer outro
lugar da Frana.
Para Simonetta tudo aquilo era um verdadeiro encanto e quando finalmente
contemplaram uma sucesso de montanhas rochosas, nuas e escarpadas, em
contraste com o cu muito azul, a jovem ficou sem fala, extasiada com a
grandeza do que via.
Sabia que seu pai tambm tinha ficado impressionado. Ambos pensavam nas
lutas desesperadas que tinham acontecido na poca medieval entre os
senhores de Baux e seus inimigos.
Suas fortalezas inatingveis tinham significado a morte para aqueles que
as atacavam.
Agora, porm, no existia mais violncia, apenas uma fantstica magia,
que se intensificava cada vez mais, deixando o duque e sua filha
impressionados, pois era muito diferente de tudo que eles conheciam.
Os cavalos seguiram por uma estrada cheia de curvas, que levava ao topo
de uma colina, onde havia as alvas runas de um castelo. Deixaram o belo
monumento para trs e entraram em um pequenino vale, ladeado por
rochedos.
Apenas algumas casas apontavam aqui e ali no meio do verde e, para grande
surpresa de Simonetta, o cocheiro parou diante de uma pequena habitao,
toda caiada de branco.
A jovem sabia que aquele era o estilo tpico da regio. Contemplou
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o jardinzinho, cheio de flores, e as janelas escancaradas, por onde
entrava o sol. Parecia at uma casa de boneca, muito diferente da manso
onde morava com seu pai.
-  aqui que nos hospedaremos?
- Creio que sim, minha filha.
Desceram da carruagem e percorreram uma pequena alameda, chegando at a
porta da casa, que estava aberta. Mal tiveram tempo de perceber que se
encontravam em uma sala de estar confortvel e bem mobiliada, quando uma
mulher entrou por outra porta que, sem dvida, dava para a cozinha.
- Bonjour, monsieur! - ela disse. - Imagino que sejam os hspedes de quem
o sr. Louis Gautier me falou.
- com efeito! Meu nome  Clyde Calvert e esta  minha... discpula,
mademoiselle Simonetta.
- Eu me chamo Marie. O sr. Gautier contratou-me para que eu mantenha a
casa em ordem. Se quiser servios extras, ter de pagar por eles.
Marie se exprimia com agressividade, numa atitude de defesa.
- Como no? O sr. Gautier me informou de que a senhora  muito boa
cozinheira.
- Depende do que tenho para cozinhar, monsieur - declarou Marie, com uma
ponta de mau humor.
O duque enfiou a mo no bolso e tirou algumas moedas de ouro.
- Quero adiantar seu salrio, Marie. Aqui tem tambm algum dinheiro para
a comida. Devo dizer que mademoiselle e eu queremos o que existe de
melhor.
Simonetta notou que Marie olhava as moedas com indisfarada cobia.
- O po  barato, monsieur, mas a manteiga, os ovos e galinhas de boa
qualidade so caros.
- Quero que voc compre o que houver de melhor, Marie insistiu o duque.
Ele colocou algumas moedas na mo da mulher que recolheu-as rapidamente,
como se temesse que desaparecessem e fossem apenas fruto de sua
imaginao.
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- Farei o possvel para satisfaz-los, monsieur - disse, modificando
inteiramente sua atitude. - Sou considerada uma das melhores cozinheiras
de Ls Baux e os senhores no ficaro decepcionados.
Obrigado, Marie. Mademoiselle e eu ansiamos por uma amostra
de suas habilidades culinrias na hora do jantar, mas agora
apreciaramos, se possvel, uma refeio ligeira.
Preparei uma omelete com as ervas da Provena e hoje  noite
experimentaro minha galinha recheada, que faz o sr. Gautier beijar os
dedos de entusiasmo, toda vez que se refere a ela.
- Estamos ansiosos por prov-la, Marie - falou o duque, sorrindo.
Ele voltou-se em seguida para dar algumas ordens ao cocheiro, que trazia
a bagagem para dentro.
Havia no andar trreo um quarto muito confortvel, que Simonetta insistiu
para que seu pai o ocupasse. Ela subiu uma escada estreita e, no primeiro
andar, encontrou um pequeno quarto, muito simptico e bem mobiliado.
Gostava dele porque dali conseguia contemplar as altas montanhas rochosas
da regio.
Ficara fascinada com aquelas formas e no queria fazer outra coisa seno
admir-las, mas sabia que seu pai a esperava. Assim contrariada, tirou
rapidamente um vestido da mala, trocou de roupas e desceu correndo para a
sala de estar.
Conforme esperava, o duque j punha para fora suas telas, pincis, tintas
e o cavalete. Sabia que ele estava ansioso para pintar aquelas formosas
paisagens banhadas por aquela luz mgica, que de to longe tinha vindo
procurar. Foi muito difcil convenc-lo a esperar at comer algo, antes
de ir buscar inspirao na natureza.
Simonetta apreciou muito a omelete, mas percebia que seu pai no tirava
os olhos da janela. Sua mente j planejava o quadro que queria realizar.
- Gostaria de encontrar um livro que desse mais informaes sobre os
poetas e trovadores medievais - disse Simonetta, numa tentativa de
distra-lo.
Ele deu uma resposta qualquer, muito distrado. A jovem sabia que o
duque, naquele momento, concentrava-se inteiramente na pintura.
25
Assim que terminou de comer a omelete e o delicioso queijo de cabra,
feito na regio, o duque levantou-se. Sem nem convidar Simonetta para
acompanh-lo, saiu carregando o cavalete, a tela, a palheta, os pincis e
tintas, desaparecendo na estrada poeirenta que levava aos altos rochedos.
Simonetta morria de vontade de explorar os rochedos, mas achou mais
sensato desfazer primeiro as malas e acomodar-se na casa. Era tambm a
oportunidade de ficar conhecendo melhor Marie.
Foi encontr-la na cozinha, limpssima, onde a criada, agora que tinha
sido muito bem paga por seus servios, estava de excelente humor.
- Tambm pinta, mademoiselle? - ela indagou. - Ou veio  Provena a fim
de fazer companhia ao simptico cavalheiro que  amigo de monsieur
Gautier?
Havia uma indisfarada curiosidade em sua pergunta e Simonetta apressou-
se em responder.
- Monsieur Calvert  meu professor e sou sua aluna. Estou muito ansiosa
para me tornar uma boa pintora.
Marie encarou-a e Simonetta pensou que a criada estudava seu rosto a fim
de descobrir se ela dizia a verdade!
- Ora! Como se j no houvessem homens em quantidade suficiente perdendo
o tempo com a pintura, precisava aparecer mulheres para imit-los!
- Que injustia! - disse Simonetta, rindo. - Se as mulheres tm talento,
por que no haveriam de explor-lo?
- A melhor coisa que uma mulher tem a fazer  criar seus filhos e isso
no deixa tempo para mais nada.
- Quantos filhos voc tem?
- Seis, e agora que eles tm idade suficiente para tomar conta de si,
posso ganhar algum dinheiro fora de casa.
-  isso o que farei se me tornar uma pintora bem-sucedida declarou a
jovem.
- com sua bela aparncia, mademoiselle, certamente acabar por encontrar
um marido rico, mesmo que no tenha dote. Isso  difcil
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para uma garota feiosa, mas se ela  bonita, sempre existir um homem
disposto a se perder por seus encantos.
No tenho a menor vontade de me casar no momento! Bem,
acho melhor desfazer minha mala e tentar pintar um pouco, antes que o dia
acabe.
- Ter tempo suficiente para pintar antes que a noite caia observou
Marie.
Subindo a estreita escada que levava a seu quarto, Simonetta pensou, com
um sorriso, que Marie era como os crticos de Paris, que no tinham muita
considerao pelos impressionistas, o mesmo acontecendo com o pblico,
que no comprava seus quadros.
Simonetta lembrou-se de ter lido em um jornal de Paris a declarao de um
crtico, que afirmava que "Monet e Renoir pareciam declarar guerra 
beleza".
- Como  que eles podem ser to cegos? - perguntou a jovem com raiva,
naquela ocasio, ao ler o artigo.
- Sempre acontece isto com as novas ideias - respondeu o duque. - Desde
que Galileu foi preso por afirmar que o mundo era redondo e no chato,
sempre houve quem lutou fanaticamente contra novos conhecimentos.
Simonetta contemplou atravs da janela os altos rochedos de Ls Baux.
O sol da tarde banhava-os com sua luz dourada e pareceu-lhe impossvel
que algum no apreciasse sua luminosidade.
A luz que fazia os impressionistas pintarem de modo diferente de todos
aqueles que os precederam era algo que precisava ser visto no apenas com
os olhos, mas com os mais profundos instintos da alma.
- Preciso tentar pintar da mesma forma - ela disse a si mesma. Pendurou
rapidamente seus vestidos no guarda-roupa, desceu com
um cavalete e uma caixa de pintura e foi para o jardim na frente da casa.
No precisava ir adiante para encontrar um tema para seu quadro, pois
bastava-lhe a linda casinha, com seu encantador telhado vermelho,
recortado contra as rochas nuas que apontavam para o cu.
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Tudo aquilo era to belo que Simonetta comoveu-se, sentindo no mais
ntimo de seu ser o encanto do que a rodeava.
Armou o cavalete e, misturando as cores, tentou passar para a tela o
contraste de luz e sombra que os impressionistas diziam ser uma
impresso visual da prpria vida.
Seu pai tinha lhe explicado, em termos muito simples, o que eles
pretendiam alcanar.
- O impressionismo, Sirnonetta,  antes de tudo uma maneira de enxergar.
- Os impressionistas encaram a luz como vida?
- Exatamente, e  a magia da luz, transmitida pela magia da cor, que se
tornou no incio aquilo que guiava os primeiros impressionistas.
Simonetta prestava muita ateno e ele prosseguiu.
-  a luz que d vida  cor, e os impressionistas, como Monet, pintam as
cores que vem, no as cores que qualquer pessoa identifica neste ou
naquele objeto.
- Creio que entendo - disse Simonetta.
Seu pai ajudou-a, perguntando que cores ela enxergava nas rvores ou no
bosque e, aos poucos ela descobriu que quase toda cor era complementar de
alguma outra.
Verificou, principalmente que cada objeto assumia uma cor estranha e
diferente, de acordo com a luz a que estava exposto.
- Compreendo - disse Simonetta para si mesma - mas ainda assim  muito
difcil retratar a luz com tintas comuns. Necessitaria de tintas
mgicas, que pudessem mudar com a rapidez da prpria luz!
Mesmo assim ela tentou e aps pintar por quase duas horas, pensou que
finalmente tinha conseguido algum resultado, que talvez merecesse a
aprovao de seu pai.
Comeou a sentir muito calor Pois o sol queimava-lhe a cabea
descoberta, e entrou na casa  procura da sombra.
Sentou-se numa poltrona confortvel e devia ter adormecido, pois quando
acordou era tarde e seu pai estava diante dela.
- Oh, papai, voc j voltou! - ela exclamou.
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O calor do sol me deu sede.
- Quer que lhe faa ch? Ou prefere que eu veja se existe uma garrafa de
vinho em casa?
- Prefiro tomar o vinho quando for  taverna mais tarde. O ch vai bem no
momento, apesar de preferir algo mais frio.
Simonetta foi at a cozinha e, enquanto a gua fervia na chaleira,
encontrou um limo que Marie devia ter trazido. Fez uma limonada para o
duque, que a tomou com muito gosto.
- Que frutas ser que poderemos comprar? - ele perguntou. Notei, enquanto
vnhamos para c, que as cerejeiras esto carregadas.
Mal ele terminara de falar, ouviram-se passos que se aproximavam e o
duque e sua filha encararam-se, surpreendidos, enquanto um homem entrava
na casa.
Ele era moreno e francs, com toda certeza. Vestia um elegante traje de
montaria e suas botas eram de tal forma reluzentes que pareciam espelhar
tudo a seu redor.
- Bonjour. Louis Gautier est? - perguntou em francs.
- No, encontra-se em Paris - respondeu o duque, levantando-se.
- Sou amigo dele e ele emprestou-me sua casa.
- Se Gautier fez isto, tenho certeza de que o senhor  um artista.
- Tento s-lo. Meu nome  Clyde Calvert. O francs o estudou com ar
pensativo.
- Do modo como fala presumo que seja ingls, monsieur. Creio que j ouvi
Gautier referir-se ao senhor. Parece-me que ele j vendeu alguns de seus
quadros.
- Isso quando tenho quadros para vender - respondeu o duque
com secura.
- A maior parte dos pintores diria: "quando tenho a oportunidade de
vend-los!" - disse o desconhecido, rindo. - O mercado no anda bom, mas,
do ponto de vista de um artista, ser que algum dia foi diferente?
O duque no disse nada e Simonetta percebeu que o francs no estava
olhando para seu pai, mas para ela.
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- Permitam que me apresente. Sou o conde Jacques de Lavai. Sou um patrono
das artes e, como Gautier confirmar, sou tambm um bom cliente dele.
O duque inclinou a cabea, num gesto corts, porm seco, e o conde fez
mais uma pergunta.
- No me apresentar  mademoiselle?
- Esta  minha aluna. Seu nome  Simonetta.
- Que nome to apropriado! Ela, sem dvida, se parece demais com aquela
criatura de quem tirou o nome.
O conde aproximou-se de Simonetta. No lhe apertou a mo, conforme ela
esperava, levando-a nos lbios.
- Enchant, mademoiselle. J que  pintora, espero que me permita ver seu
trabalho.
- No h muito o que mostrar - apressou-se em dizer a jovem.
- Estou interessado em tudo o que a senhorita tiver produzido.
Aquilo era, sem dvida, um elogio rasgado e Simonetta olhou para seu pai,
desenxabida.
Para sua grande surpresa ele  em vez de ficar aborrecido com o interesse
do conde, sorria.
- Lavai! Agora sei onde ouvi seu nome. O senhor comprou um quadro de
Claude Monet no ano passado. Ele me falou a respeito, e foi uma grande
honra que o senhor o acrescentasse  sua coleo.
- Sou grande admirador de Monet.
- O mesmo acontece comigo.
Sem ser convidado, o conde sentou-se e, da a pouco, os dois estavam numa
profunda discusso sobre a obra de Monet.
- Ele descobriu o poder da luz - afirmou o duque. - O que mais se pode
dizer deste homem to extraordinrio?
- Nada! - declarou o conde.
Enquanto ele falava, seus olhos procuravam Simonetta e ela teve a
sensao de que ele conversava com seu pai apenas para poder prolongar a
oportunidade de encar-la.
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Julgou que talvez aquilo no passasse de fruto de sua imaginao, mas os
olhos escuros e expressivos do conde faziam-na sentir-se envergonhada.
Levantou-se e foi at a cozinha, ver se a chaleira fervia.
- Sua aluna  muito jovem - observou o conde, mudando subitamente o rumo
da conversa.
- Muito jovem, com efeito. Trouxe-a comigo porque tem um talento notvel
e seria um erro desperdi-lo.
- Mas  claro! - concordou o conde.
Simonetta voltou com uma bandeja, na qual tinha colocado o bule e trs
xcaras de ch. O conde prosseguiu:
- Monsieur Calvert, sinto-me ansioso por mostrar ao senhor e  sua aluna
minha coleo de quadros. Vrios deles esto aqui, no meu castelo, e
tenho muitos outros em Paris.
- Estamos aqui por pouco tempo - declarou o duque, aps hesitar um pouco.
- Quero pintar o tempo todo enquanto permanecermos em Ls Baux.
- Prometo que no atrapalharei suas atividades e, assim sendo, eu os
convidarei para jantar. Ser hoje  noite e enviarei uma carruagem para
peg-los. Quero mostrar-lhe o Vero, de Monet, que adquiri h seis anos.
- O senhor tem esse quadro? - perguntou o duque, admirado. Sempre senti
vontade de v-lo.
- Est pendurado em um lugar de honra, no castelo. Tenho tambm quadros
de outros impressionistas, tais como Manet e Renoir. O senhor, com toda
certeza, os apreciar tanto quanto eu...
Simonetta sabia que seu pai no conseguiria resistir quele convite. Ao
mesmo tempo imaginou, um tanto preocupada, que vestido usaria.
O duque insistiu para que ela no trouxesse nenhum vestido de noite e,
como se sentisse o que a jovem estava pensando, o conde fez uma
observao.
- Claro que ser um jantar informal, pois sei que o senhor deve pintar
enquanto houver luz. Espero que, juntamente com mademoiselle, se vistam
inteiramente  vontade.
-  muita gentileza de sua parte - agradeceu o duque. - Tenho
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mesmo o maior desejo de ver o Vero, de Monet. O quadro foi vendido antes
que eu pudesse conhec-lo e frequentemente  o tema de
nossas conversas.
- Pois terei muito prazer em mostr-lo.
O conde recusou o ch que Simonetta lhe ofereceu e levantou-se, hesitando
um pouco.
- Entreguei meu cavalo aos cuidados de um garoto, mas acho que no posso
confiar muito nele. At logo - disse, estendendo a mo ao duque. - Ns
nos veremos amanh  noite.
- Obrigado.
Em seguida o conde apertou a mo de Simonetta.
- Algum j lhe disse, mademoiselle, que seu rosto e seus cabelos so
dignos de um quadro? Talvez apenas Botticelli conseguisse retrat-la com
fidelidade.
- Eu, como artista, interesso-me muito mais por paisagens - replicou a
jovem, envergonhada pelo elogio.
- Precisamos encontrar algum que a pinte e que saiba como usar os
olhos...
- Desejo ser pintora e no modelo, monsieur... - observou Simonetta,
rindo.
- Temos de discutir a fundo este assunto.
O conde beijou a mo de Simonetta e retirou-se, sendo seguido pelo duque
que, muito gentil, o acompanhou at a porta.
Simonetta esfregou a mo no tecido da saia. No sabia por que, mas o
toque daqueles lbios a fez sentir-se um tanto incomodada.
- Ele est por demais interessado em voc - declarou o duque, voltando
para a sala e pegando a xcara de ch. - Acho melhor voc ficar em casa,
quando eu for jantar com o conde amanh.
- Mas, papai, quero ver o quadro de Monet! Voc j ouviu falar do conde?
- Ouvi, sim. Ele tem comprado muitos quadros de pintores impressionistas
e dizem que  generoso com alguns artistas.
- Pois ento imagino que seja muito rico pois, segundo voc me
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diz papai muito pouca gente quer colecionar quadros pintados pelos
impressionistas.
verdade, mas aposto que, um dia, pessoas como Monet, Renoir
e Czanne sero famosas.
Um dia? Depois que eles morrerem?
- Receio que esta seja a resposta correta.  uma pena um homem ter de
morrer antes de ser reconhecido.
- Acho isso muito triste, papai, mas acontece com frequncia. Gosto dos
quadros que voc pinta e espero que algum dia as pessoas apreciem os
meus.
- No me incomodo que isso acontea, mas prefiro que ningum ponha a mo
em voc, caso contrrio eu a levarei de volta  Inglaterra.
- Antes pintarei os rochedos de Ls Baux umas doze vezes. Ademais, creio
que o conde tem esse mesmo tipo de comportamento para com todas as
mulheres que conhece.
 - No duvido! Eu, porm, no permitirei de modo algum que ele a inclua na
lista de suas conquistas.
O duque falava com tamanha agressividade que Simonetta voltou a rir.
- Esquea-o, papai, e mostre-me o que voc pintou hoje  tarde.
- Apenas iniciei. A luz daqui  to fantstica que no existem cores
suficientes para transport-la para a tela.
No entanto, quando ele mostrou para sua filha o que tinha pintado, ela
sentiu que, de certa forma, o duque tinha conseguido transportar para a
tela o que ele sentia e no o que ele via. Isso ficava evidente nas cores
brilhantes que ele tinha empregado.
- Est bonito, muito bonito, papai! Sinto que este quadro vai ser muito
melhor do que tudo que voc fez at aqui.
- Espero que sim. A gente sempre  otimista em relao aos quadros que
faz, at termin-los. Somente nesse momento  que percebemos nossas
limitaes.
- Tenho certeza de que seu amigo Claude Monet diria que est encantado
com seu progresso...
Os dois puseram-se a falar de pintura at ouvirem um barulho na cozinha,
anunciando que Marie tinha voltado.
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- Hoje jantaremos mais cedo - comunicou o duque. - Enqanto voc se
recolhe, vou at a hospedaria, para ver se chegou algum de meus amigos.
- Se eu no estivesse com voc, garantou que j teria ido l...
- disse Simonetta, sorrindo.
- No vou l  procura de companhia, mas pretendo comprar algumas
garrafas de vinho.  claro que no espero receber ningum, mas devemos
ter algo em casa para oferecer a uma visita inesperada.
- Claro, papai. J ouvi falar dos vinhos da Provena e de como so bons.
Seria uma pena no beb-los, enquanto estivermos aqui.
- Fao questo de beber o Chateou Neuf du Pape, que  o vinho mais
festejado da regio do Rdano. Acho que podemos fazer uma extravagncia
e, de vez em quando, beber champanha...
Simonetta olhou para seu pai. Ele, sem dvida, comeava a se divertir com
a viagem. Ao mesmo tempo, receava que algo pudesse aborrec-lo e que ele
insistisse para que voltasse  Inglaterra.
Talvez nunca mais tivesse a oportunidade de estar a ss com seu pai, sem
que ningum interferisse, e precisava aproveitar-se ao mximo daquela
chance.
Conversaram com grande alegria durante o jantar que Marie preparou e que
estava delicioso.
A galinha cozida no molho de ervas da regio tinha um sabor sensacional e
Simonetta entendeu por que momieur Gautier beijava a ponta dos dedos,
sempre que a comia.
O prato principal foi um peixe grelhado e, como sobremesa, foi servido um
crepe de cerejas.
- Voc tem razo, Marie - disse o duque, assim que ela entrou para
recolher os pratos. -  a melhor cozinheira no s de Ls Baux, mas de
toda a Provena!
Marie ficou encantada com o elogio.
- Merci, monsieur! Sei cozinhar quando tenho os ingredientes necessrios,
mas isso,  claro, significa gastar dinheiro.
- Quando tiver gasto tudo o que lhe dei, venha me pedir mais. Se
mademoiselle e eu engordarmos, a culpa ser toda sua.
- No engordaro de modo algum! Tenho certeza de que se sentiro muito
bem. O mesmo no posso dizer daqueles feixes de ossos
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que vm aqui pintar quadros que nunca so vendidos.
Ela voltou para a cozinha, sem esperar resposta, e o duque psse a rir.
 evidente que o temperamento artstico no  muito apreciado
em Ls Baux...
- Bem, pelo menos os moradores no cobram a luz!
- Tenho certeza de que cobrariam, caso isso fosse possvel. Os franceses
aproveitam-se de todas as oportunidades de ganhar dinheiro! Bem, agora v
se deitar, Simonetta. Amanh levantaremos bem cedo e comearemos a
pintar.
- Quero acompanh-lo, papai. Terei tempo de sobra para terminar a
paisagem do jardim, que comecei.
- Est bem, mas esteja prevenida: se voc pintar melhor do que eu,
ficarei com muito cime!
- Eu o amo, papai! - disse Simonetta, beijando seu rosto. No se envolva
com seus amigos artistas a ponto de esquecer que estou aqui.
- Jamais hei de fazer semelhante coisa.
O duque retirou-se e a jovem o achou muito elegante, apesar das roupas
bem pouco convencionais que usava.
Marie j tinha tirado a mesa e lavava ruidosamente a loua na cozinha.
Simonetta foi at a porta da entrada. O sol se punha e cobria tudo de uma
luz dourada. O cu comeava a escurecer e ela sabia que, da a pouco, as
estrelas surgiriam.
"Espero que a lua aparea", pensou.
Muitos dos livros que tinha lido diziam que no havia nada de mais belo
ou misterioso que o claro da lua a banhar os rochedos e o castelo em
runas.
Decidiu subitamente que no estava cansada, apesar da viagem. Atravessou
o jardim e seguiu pela estrada que seu pai tinha tomado e que levava a
Ls Baux.
"Preciso ver as runas do castelo e imaginar aqueles dias gloriosos,
guando havia uma Corte aqui e os trovadores cantavam um amor que era
idealista e puro... "
Imaginando como seriam aqueles dias, Simonetta percorreu a estrada
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at notar,  esquerda, um belo monumento todo esculpido em pedra.
Ele capturava os ltimos reflexos do sol. Seu interior estava mergulhado
na escurido, mas o teto arredondado brilhava, como se fosse decorado com
pedras preciosas.
Curiosa por descobrir de que se tratava, Simonetta aproximou-se. Apesar
de ser muito antigo, o monumento estava quase intacto. Dentro havia
pilares que suportavam o teto. Ele transmitia a sensao irreal de que
aqueles que por ali tinham passado haviam deixado nele sua marca. A moa
teve a impresso de que os seres do passado lhe falavam atravs daquela
construo.
Sentou-se por um momento em um banco de pedra, e depois voltou at a
porta. O sol, em todo seu esplendor, lanava seus ltimos raios sobre os
rochedos de Ls Baux. Simonetta teve a sensao de que absorvia todo
aquele brilho e que ela tambm refletia a luz. De repente, percebeu que
algum lhe dava uma ordem.
- No se mexa! Fique onde est!
As palavras foram ditas com tamanha rispidez e aquilo soou to inesperado
que ela ficou imvel, olhando ao mesmo tempo para saber de onde vinha a
voz.
Percebeu ento que, entre os arbustos, bem em frente a ela, havia um
homem.
Ele estava sentado embaixo de uma rvore, diante de um cavalete, e
pintava o monumento. Simonetta sorriu pois, sem querer, tinha interferido
no quadro do pintor, tornando-se seu modelo. Para ele seria uma decepo
se ela se movesse, j que a tinha acrescentado  sua composio.
- Levante a cabea e fique como estava ainda h pouco! - ele ordenou.
Divertida com o tom autoritrio de sua voz, Simonetta ergueu o rosto e
olhou em direo  luz do sol que morria. Ficou parada durante alguns
minutos, em silncio, e o pintor finalmente se manifestou.
- Mon Dieu! No posso mais pintar, pois no h mais luz. Isto me deixa
furioso! No consigo enxerg-la.
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Enquanto falava, o artista levantou-se, aproximando-se de Simonetta. Ela
esperou em silncio. curiosa de saber qual seria sua aparncia. A julgar
pelo modo como ele falava, devia ser algum culto e bem educado.
Ao se aproximar, Simonetta distinguiu um homem alto, jovem, de cabelos
pretos.
- Julguei que a senhorita fosse a prpria rainha Joana! - ele falou,
parando diante dela.
- Quem era ela?
- Este monumento era o seu templo e Joana foi,  claro, uma das rainhas
da Corte do Amor.
- Que fascinante! Julguei que tudo aquilo que tivesse a ver com uma corte
acontecesse dentro do castelo. - Simonetta percebeu que o desconhecido
sorria.
- Os seguidores da rainha mandaram levantar este templo fora do castelo,
de modo que ela pudesse visit-lo quando quisesse. Nos dias de hoje as
moas vm at aqui rezar para encontrar um homem que as ame
apaixonadamente. Era isso o que estava fazendo?
- No, no se tratava de nada to romntico - disse Simonetta, rindo. -
Estava apenas explorando a regio.
- Sozinha, a esta hora? Ou est  procura de aventuras?
- No, apenas passeava.
- Pois sinto profunda gratido por aquilo que a inspirou a agir assim. A
senhorita  exatamente quem eu desejava para ser o centro de meu quadro.
- O senhor pinta at muito tarde...
- Pintei o dia inteiro. O que eu queria no saa de modo algum e, de
repente, l estava a senhorita... Convenci-me imediatamente que era o que
eu necessitava para tornar meu quadro perfeito.
- Se  assim, monsieur, fico muito contente por ter podido aJud-lo.
Ela desceu do monumento e preparava-se para se afastar quando
O pintor a deteve.
37
- No ande to rpido! Para onde vai?
- Para casa.
- Por favor, espere! A senhorita no pode ser to insensvel e cruel a
ponto de no permitir que termine seu retrato. Isto quer dizer que
precisa posar novamente para mim amanh.
- No posso. Estarei ocupada, pintando.
-  uma artista?
- Tento ser.
- Parece-me jovem e bela demais para se preocupar com a arte.
- No sou de sua opinio. Portanto, boa noite e boa sorte.
- Se me abandonar desse jeito juro que farei com que todo mundo em Ls
Baux saia  sua procura. Saiba que estou disposto a segui-la, onde quer
que v.
Simonetta voltou-se e o encarou. O rosto dele estava quase oculto pela
escurido, mas ainda assim tinha a sensao de que podia confiar nele.
- Sou assim to importante para que possa finalizar seu quadro?
- Ele jamais ser completado sem a senhorita.
- E quanto tempo levar para me pintar?
- No h de demorar muito tempo.  que quando a vi no Templo, com os
braos estendidos, toda a composio de meu quadro se tornou cheia de
vida. Antes era uma coisa morta e eu sabia que existia algo errado. Agora
sei que o que faltava era sua pessoa!
O que ele dizia no era pretensioso e no estava procurando lisonje-la.
Era como se constatasse um fato muito simples e dissesse a verdade.
- Est bem. Voltarei amanh  tarde, talvez um pouco mais cedo do que
hoje - disse Simonetta, sorrindo.
- E por que no pela manh?
- Porque estarei pintando com meu...
Simonetta estava a ponto de dizer "com meu pai", mas dominou-se a tempo.
38
- Estarei pintando com meu professor.
Quem  ele? Eu o conheo de nome?
Duvido. Ele  ingls.
- Sabia que seu francs, apesar de excepcional, a ponto de julg-la
uma parisiense, tem algo que denota uma origem estrangeira. Quero
cumpriment-la por falar minha lngua quase com perfeio mademoiselle!
- Merci, monsieur. Aprecio muito seu elogio.
Os ltimos raios de sol se apagaram e agora eles conversavam na mais
completa escurido.
- Amanh conseguirei v-la melhor - disse o pintor. - Se no conseguir
terminar meu quadro, ele no me sair da cabea.
- Como uma sinfonia inacabada - disse Simonetta, sem pensar.
- O que ser uma pena... Esperemos que isso no acontea.
- J prometi que voltarei a posar para o senhor.
- Quero acreditar que me ajudar e no desaparecer como a rainha Joana,
que mergulhou nas brumas do passado. Espero que seja uma criatura de
carne e osso e no um fantasma.
- Espero que no. Sinto tanta pena dos fantasmas! Tenho a sensao de que
assombram os lugares no porque queiram assustar aqueles que os vem, mas
porque procuram a felicidade que perderam.
- Talvez por isso Ls Baux seja to cheia de fantasmas. Talvez aqueles
que pertenciam  Corte do Amor, tendo perdido suas amadas, ainda as
procurem atravs dos sculos.
- Que pena! Algum que um dia conheceu o amor verdadeiro deve querer
conserv-lo, at para alm da morte...
- A senhorita fala como se jamais tivesse amado...
Simonetta caiu em si e percebeu que estava tendo uma conversa ntima
demais com um estranho.
- Bem... Preciso ir embora. Boa noite, monsieur. Voltarei novamente
amanh.
Permita-me acompanh-la at onde est hospedada. No pretendo
39
 impor minha presena, apenas tomar certos cuidados, tendo em vista
sua segurana.
- No acredito que corra qualquer perigo em Ls Baux.
- Sempre existem perigos rondando uma bela mulher que anda
desacompanhada, sobretudo num lugar como este, onde tudo respira amor...
- No precisa preocupar-se comigo. Estou hospedada aqui perto.
Simonetta afastou-se e, sem dizer mais nada, o artista a seguiu.
Caminharam em silncio, envolvidos pela noite.
Ao chegarem perto de uma cerca, a jovem, insegura, achando que poderia
tropear, fez uma pausa. O pintor estendeu-lhe a mo e ela, sem pensar no
que fazia, segurou-a.
Os dedos dele eram firmes e ela teve a estranha sensao de que sentia
uma vibrao que vinha daquele homem. Concluiu, porm, que aquilo era
apenas fruto de sua imaginao.
Ele ajudou-a a atravessar a cerca e continuaram juntos pela estradinha
ladeada de carvalhos.
- Ainda estamos longe? - perguntou o pintor, assim que Simonetta retirou
a mo.
- Eu moro na prxima casa.
- Ento est hospedada na residncia de Gautier?
- Sim, ele a emprestou a meu professor. O senhor conhece monsieur
Gautier?
- Sim, de nome. Seria capaz de lhe entregar meus quadros, caso quisesse
vend-los.
Simonetta sorriu, lembrando que era essa a frase que seu pai tinha dito
ao conde.
- Por que est sorrindo? - perguntou o pintor. Simonetta contou o que se
passava.
- Parece-me que o senhor no se angustia tanto por dinheiro quanto tantos
artistas que existem pOr a, pelo menos entre os pintores
impressionistas.
40
E  o que tento ser: um pintor impressionista.
Eu tambm. Existe um lugar melhor para se trabalhar do que
Les Baux?
De modo algum!
Costuma vir aqui com frequncia?
- Sim, sempre que posso.
- E onde mora? Em Paris?
- No, na Normandia.
-  por isso que  to alto para um francs!
Simonetta achou que sua observao era um tanto ntima e sentiu-se
aliviada, pois a escurido o impedia de notar o quanto ela ficara
ruborizada.
- com que ento notou minha altura...
- O senhor caminhava contra a luz do sol quando se aproximou de mim.
- E a senhorita o encarava. Havia luz suficiente para eu notar o quanto 
bela!
Simonetta ficou tensa. Julgou que o pintor estivesse flertando com ela e
sabia o quanto seu pai ficaria zangado, se soubesse.
A essa altura tinham chegado ao porto do jardim da casa de Gautier. A
jovem voltou-se e estendeu a mo.
- C estamos. Obrigada por me acompanhar at em casa, monsieur!
- Desculpe se a ofendi com minha franqueza, mas falava como um pintor, 
claro.
Aquelas palavras levaram Simonetta a sentir que tinha sido muito
Presunosa e que se comportara com certa tolice.
- Sinto muito...
- No, a senhorita tem razo.  preciso tomar cuidado com os elogios e
com homens desconhecidos que lhe dirigem a palavra no Templo do Amor.
Tenho a sensao, embora talvez me engane, que  muito jovem e no
costuma agir assim com frequncia.
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-  verdade.
Simonetta chegou  concluso de que estava mais do que na hora de deix-
lo e interromper a conversa. No entanto, ele ainda segurava sua mo e ela
no conseguia retir-la.
- A senhorita prometeu voltar a me ver, mas ainda no me disse seu nome.
- Chamo-me Simonetta.
- Mas  claro! No podia ser outro.
Ela sentiu que talvez fosse embaraoso para ele fazer outras perguntas.
- E qual  seu nome, monsieur?
- Pierre Valry.
- um pintor muito conhecido na Frana?
- Gostaria de poder responder essa pergunta atravs de uma resposta
afirmativa, mas devo reconhecer que ningum ouviu falar de mim. Pelo
menos ainda no!
- Mas... pensa e espera que isso acontea?
- Bem, no h um pintor impressionista que no deseje alcanar a fama,
no somente para si prprio, mas para a nova escola que ele est tentando
impor.
-  difcil, sobretudo quando algum tem algo revolucionrio a oferecer
ao mundo. Mas, uma vez que isto seja entendido por todos, ajudar e
iluminar queles que precisam de inspirao.
Simonetta falava do mesmo modo como falaria com seu pai e as palavras lhe
saam direto do corao.
- Como  que a senhorita pode ser to compreensiva, sendo ainda to jovem
e, ao mesmo tempo, to bela? Obrigado por aquilo que acabou de dizer!
No havia a menor dvida quanto  sinceridade com que ele se exprimia.
Simonetta sentiu-se comovida e, mais uma vez, tornou-se consciente das
vibraes que vinham dos dedos de Pierre Valry.
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- Boa noite, monsieur! - disse num tom de voz que mais parecia
um sussurro.
Em seguida saiu correndo em direo  pequena casa que tanta segurana
lhe proporcionava.
43

CAPITULO III

Simonetta afastou os cabelos da testa, pois sentia calor. O sol estava
escaldante e a luz se refletia intensamente sobre a paisagem.
Olhou para a tela e pensou, desesperada, que jamais conseguiria capturar
a luminosidade de Ls Baux. Faria melhor em desistir da tentativa.
Disse ento a si mesma que no devia fraquejar e ps-se a imaginar o que
seu pai estaria sentindo.
Olhou em sua direo, pois ele pintava a alguns passos dela.
Simonetta tinha escolhido de propsito um ngulo de viso diferente dos
imponentes e alvos rochedos que o duque tinha comeado a pintar na
vspera.
Era um desafio para qualquer artista tentar transpor para a tela aqueles
rochedos, nus e, sob certos aspectos, ameaadores.
Ao lado deles, erguiam-se rvores carregadas de flores, os ciprestes
escuros, firmes como sentinelas, e havia ainda o brilho das mimosas
amarelas, em contraste com o vermelho das lavandas, cujos botes
comeavam a se abrir.
- Que deslumbramento! - disse a jovem. Agora compreendia por que Ls Baux
era um desafio para os artistas que vinham at l!
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Naquela manh ficou sabendo que seu pai estava um tanto decepcionado com
os artistas que tinha conhecido na vspera.
Ele no costumava falar muito durante o caf da manh, mas Simonetta
percebeu que o duque no tinha se divertido tanto quanto imaginava.
Esperava que ele no a culpasse por sua decepo.
- Disseram-me que Paul Czanne chega hoje, muito embora ele seja sempre
imprevisvel - anunciou o duque, assim que acabou de comer.
- Lembro-me de voc ter dito que ele mora aqui na Provena.
- com efeito. Possui um estdio em Aix, na propriedade de sua famlia. Os
amigos dele, com quem conversei ontem  noite, disseram que ele viria at
aqui para me conhecer, e o esperam h vrios dias.
- O duque notou o entusiasmo de Simonetta e prosseguiu:
- Sei que quer conhec-lo e tentarei traz-lo at aqui, mas no tenho a
menor vontade de que voc v  taverna.
O duque no disse mais nada e pegou a tela e o cavalete.
- Voc vem comigo? - perguntou, disposto a sair.
- Claro, papai!
Ela sentiu que o duque preferia ficar em silncio e assim seguiram pela
estrada poeirenta, em direo ao lugar que o duque tinha escolhido na
vspera para ser o cenrio de seu primeiro quadro em Ls Baux.
Somente aps ter escolhido uma vista que gostaria de pintar  que
Simonetta pensou no progresso que Pierre Valry estaria fazendo em
relao ao quadro do Templo do Amor.
Agora a jovem lembrava-se de duas coisas: primeiro, que no tinha contado
para seu pai a aventura da noite anterior e, segundo, que tinha prometido
posar para Pierre Valry, esquecendo de que iriam jantar com o conde.
O primeiro problema poderia ser facilmente resolvido, pois bastava
comunicar ao duque o que tinha acontecido, quando chegasse a hora do
almoo.
Recordou-se ento do que ele dissera: se, de alguma forma, ela se
envolvesse com algum homem, ele a levaria para casa.
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Bem, eu no diria que estou exatamente envolvida. Ela refletiu.
Ao mesmo tempo o duque poderia achar censurvel que ela tivesse sado de
casa, quando pensava que a filha tivesse ido dormir.
Ele tambm ficaria perturbado pelo fato de ela ter conversado com um
artista desconhecido, a quem no tinha sido apresentada.
- Acho melhor no dizer nada, no s porque sinto vergonha do que fiz,
mas tambm porque isso poderia perturbar papai - ela disse a si mesma.
Olhou-o sentado a distncia, pensando o quanto ele ainda era bonito e
atraente.
Por mais que o duque tentasse disfarar, usando roupas pouco
convencionais, ainda assim ele possua uma autoridade e um ar de nobreza
indisfarveis.
Simonetta ficou curiosa em saber se o mesmo se aplicava a ela, mas achou
pouco provvel que algum fosse imagin-la uma aristocrata que viajava
procurando se disfarar.
Era suficientemente sensata para perceber que, do ponto de vista de seu
pai, isso a tornaria ainda mais vulnervel do que j era.
No posso deix-lo preocupado no incio de nossa aventura, pensou, caso
contrrio ele nunca mais me levar em outra viagem.
Aquela manh, ela vestiu-se pela primeira vez sem a ajuda de uma criada e
Marie colocou o caf da manh sobre a mesa, deixando que eles mesmos se
servissem.
Compreendia como seu pai se sentia por conseguir escapar da cerimnia e
da etiqueta que reinavam no castelo e em suas demais propriedades.
Conforme ele dizia, sempre havia algum pronto para servi-lo e para mim-
lo, e o mesmo acontecia com Simonetta.
Quando era pequena, tinha uma governanta e uma bab que cuidavam dela,
alm de uma criada e um servial destacados para ficarem  sua
disposio.
Mais tarde teve outras governantas, muito capacitadas naqueles assuntos
que seu pai considerava importantes para sua educao.
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AO contrrio da maioria das famlias nobres, que educavam seus filhos e
negligenciavam suas filhas, o duque insistia para que Simonetta tivesse
as mesmas oportunidades de seus irmos, no que dizia respeito ao
desenvolvimento de seu intelecto.
Assim, ao lado da governanta e da bab, que permaneceram com ela at se
aposentarem, teve professores de francs, grego, latim e msica, alm
daqueles que eram contratados para lhe ensinar o que ela desejasse.
O fato de ter tanta gente para servi-la levou-a a sentir-se quase uma
prisioneira. Agora, pela primeira vez na vida, sentia-se livre,
exatamente como seu pai.
Seria, portanto, uma grande tolice torn-lo apreensivo, revelando o que
tinha acontecido na vspera.
- Ele certamente no gostaria que eu conversasse com Pierre Valry.
Decidiu, refletindo pela ltima vez na questo.
Tinha plena certeza de que seu pai a proibiria de tornar a v-lo e a
faria jurar que, quando ele sasse de casa, Simonetta no se ausentaria
sem ele.
Acho melhor esquecer de contar para papai o que aconteceu, disse a jovem,
olhando para o cu muito azul. O sol, de certa forma, a dispensava de
qualquer sensao de culpa.
Seria bem mais difcil resolver o outro problema.
Tinha feito uma promessa e seria muito grosseiro de sua parte ignorar o
fato, alis elogioso, de que Pierre Valry a queria como modelo. Devia
dizer-lhe que tinha se esquecido completamente de um compromisso
anterior. Alm do mais, tinha a sensao de que ele ficaria muito
decepcionado, caso ela no aparecesse.
- Sou essencial  composio do quadro dele - disse a si mesma.
No entanto, precisava ser honesta e reconhecer que o pintor queria vla
por aquilo que ela era. Sentia exatamente o mesmo em relao a ele.
Precisamos voltar - disse o duque, quebrando o silncio. st na hora do
almoo.
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Simonetta pegou a tela, dobrou o cavalete e caminhou em direo ao duque.
- Como  que voc se saiu, meu bem?
- No foi l essas coisas - reconheceu Simonetta. - O problema  que tudo
isto  belo demais para mim. Acho que me sairia melhor se pintasse num
lugar menos imponente.
- Voc est se acovardando!
- Eu sei, mas voc tem que concordar que isto aqui  bem mais difcil do
que tudo que tentamos pintar at agora.
-  verdade, mas temos sempre que tentar, no somente no que diz respeito
 pintura, mas a tudo o mais na vida.
Simonetta sorriu para o duque. Ele, por sua vez, pegou a tela e o
cavalete e, sem dizer mais nada, caminhou em direo  casa.
Apesar de querer ver o resultado do trabalho de seu pai, a jovem sabia
que ele no gostava de mostrar o que fazia, enquanto achasse que no era
o momento.
Caminharam absortos na paisagem, ambos profundamente conscientes de toda
aquela beleza  sua volta. Estavam famintos e sabiam que o almoo que os
esperava era com toda certeza delicioso.
Assim que chegaram em casa, Simonetta encontrou a resposta para aquilo
que a preocupava.
Aps o almoo daria uma desculpa qualquer a seu pai, dizendo para ele ir
na frente, e em seguida caminharia at o lugar onde tinha encontrado
Pierre Valry na vspera.
Ele queria que Simonetta estivesse no centro do quadro, mas durante a
manh poderia ter trabalhado no resto da tela, at ela ter condies de
posar.
O almoo estava to saboroso quanto eles esperavam e Simonetta conversou
com seu pai, distraindo-o e fazendo-o rir. O tempo passou rapidamente e
somente aps terminar a segunda xcara de caf  que o duque se
manifestou.
- No devemos desperdiar o sol. O que torna tudo mais difcil  que a
luz muda a cada hora, quase a cada minuto, e eu vivo modificando o que j
fiz. Nesse ritmo jamais terminarei um quadro!
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- Claro que terminar, papai! Voc precisa pintar pelo menos dois ou
trs. Quando estivermos em casa e nos sentirmos deprimidos, eles nos
recordaro como tudo era belo e excitante aqui.
O duque levantou-se e acariciou a cabea de Simonetta.
- Voc  uma boa menina, minha filha, e gosto de t-la em minha
companhia. Tem razo: eu me sentiria muito s, se tivesse vindo
desacompanhado.
- E eu adoro estar com voc, papai.
- Est pronta? - perguntou o duque, pegando seus instrumentos de pintura.
- V indo, papai, que eu o seguirei. Preciso encontrar um chapu, caso
contrrio terei uma insolao. Voc no precisa ficar me esperando.
- Est bem.
Assim que o duque saiu, Simonetta subiu ao seu quarto e pegou um chapu
de abas largas, que tinha posto na mala no ltimo minuto.
Era feito de palha macia, tranada com habilidade. Foi bom t-lo trazido,
pois ele a protegeria do forte sol da tarde.
Desceu em seguida para a sala de estar e separou tudo o que iria pegar na
volta, depois de avistar-se com Pierre Valry.
Simonetta caminhou em direo ao Templo, depois de certificar-se de que
seu pai tinha ido na direo oposta. Andava rapidamente, imaginando o que
faria se Pierre Valry no estivesse l.
Seria muito difcil v-lo mais tarde sem que seu pai no percebesse.
Imaginava que levariam algum tempo para chegar ao castelo do conde. Era
quase certo que ele enviaria cavalos para busc-los, logo no comeo da
noite.
O conde talvez tivesse comunicado ao duque a hora que deveriam Partir,
mas seu pai ou tinha esquecido ou no se incomodou de counicar o fato a
Simonetta.
Em todo caso, ela sabia que deveria voltar um pouco mais cedo, a fim de
se lavar e se arrumar da melhor forma possvel.
Simonetta chegou nas proximidades do Templo e olhou atravs das
49
rvores, em direo ao lugar onde Pierre Valry tinha se sentado na
vspera.
Durante alguns momentos, imaginou que ele no estava l, mas viu-o
logo em seguida e sentiu enorme alvio.
Ele a encarou e havia uma expresso de incredulidade em seu rosto. Quando
Simonetta aproximou-se, Pierre Valry estava com a palheta na mo. Pela
primeira vez ela conseguia perceber seu rosto com nitidez e julgou-o
ainda mais bonito do que ele lhe parecera na vspera.
Pierre tinha a pele muito clara e seus olhos no eram azuis, como os de
muitos normandos, mas negros.
Ele no disfarou a alegria que sentia com a chegada de Simonetta. pois a
recebeu com um sorriso acolhedor.
- Sinto-me honrado pelo fato de a senhorita ter vindo e, ao mesmo tempo,
 um alvio saber que nosso encontro no foi fruto de minha imaginao.
Tentei convencer-me a noite inteira de que a senhorita era um fantasma ou
uma apario do passado e que nunca mais voltaria a v-la.
Como ele se exprimia com a mesma calma da noite anterior, Simonetta no
sentiu que Pierre estava fazendo um elogio extravagante, mas simplesmente
constatando um fato.
- Sou real e estou aqui! - disse, rindo. - No entanto vim informar que
no posso manter minha promessa e posar para o senhor hoje at mais
tarde.
- Por que no? - perguntou Pierre com rispidez.
- Porque esqueci completamente que meu... professor e eu fomos convidados
para jantar fora.
- No sabia que existia algum em Ls Baux que tenha o hbito de oferecer
jantares.
- No iremos jantar em Ls Baux.
- Seria indiscreo perguntar onde vo?
- No h nenhum segredo. O conde Jacques de Lavai, que coleciona quadros
de pintores impressionistas, convidou-nos para ir a seu castelo.
50
O conde! - murmurou Pierre.
- O senhor o conhece?
- J ouvi falar dele.
Ele comprou o Vero, de Monet, um quadro que tenho enorme
vontade de ver. Disse-nos que possui em sua coleo muitos quadros
adquiridos a monsieur Gautier, em cuja casa nos hospedamos.
E  claro que o jantar no castelo do conde  muito mais
importante do que posar para mim...
Pierre no escondia seu desagrado e Simonetta apressou-se em se
desculpar.
- Perdoe-me! Sinto muito decepcion-lo, mas esqueci-me do jantar e,
naturalmente, tenho de ir com meu... professor.
- Cr que ele iria reparar muito se a senhorita no comparecesse?
- Demais...
- J que est aqui, por que no se coloca na mesma posio de ontem? Pelo
menos assim eu poderia adiantar um pouco mais a composio do quadro.
Simonetta hesitou e, num gesto inconsciente, olhou por cima do ombro, na
direo em que seu pai devia estar. Algo no seu semblante ou em seus
gestos levou Pierre Valry a fazer um comentrio.
- Creio que ainda no contou para seu professor que me conheceu.
Simonetta levou um susto e ficou muito ruborizada. Inicialmente pensou em
dizer: "Mas  claro que contei!" Era, no entanto, por demais honesta e
no conseguiria mentir.
- No... Para dizer a verdade, no toquei em seu nome.
 - Por que no?
- Achei que no devia...
A jovem sentia que no havia o menor motivo para responder aquela
pergunta, mas ainda assim sentia-se obrigada a isso.
- Quando meu professor deixou-me ontem  noite para ir  taVerna, disse-
lhe que iria deitar-me.
- Ele acharia estranho que a senhorita mudasse de ideia?
51
- Acharia muito inconveniente eu conversar com algum a quen no fui
apresentada.
- Mas a senhorita  independente e tem todo o direito de viver sua vida
quando no est tendo aulas, no  mesmo? - declarou Pierre, muito
surpreendido com o que tinha acabado de ouvir.
Fez-se uma pausa, enquanto Simonetta procurava uma resposta
- Creio que meu mestre sente que ele  responsvel por mim.
- O que  muito sensato. Devo dizer que no aprecio essas jovens modernas
que pensam que so independentes e que podem cuidar de si mesmas.
- Julgo que tenho condies de faz-lo - afirmou Simonetu com muita
firmeza.
- Pois no me parece que deva agir assim.
- Por que pensa assim?
- Porque uma criatura to bela quanto a senhorita precisa ser protegida
dos lobos vestidos com peles de cordeiro, que vivem rondando suas futuras
vtimas.
- Do jeito que o senhor fala, chego a sentir medo, mas at agora no vi
nenhum lobo - observou Simonetta, rindo. - Se visse. eu o reconheceria.
- No tenha tanta certeza assim.
- Acho que sei distinguir quando algum tem ms intenes. Ela discutia
com Pierre do mesmo modo como discutia-com seu
pai, no somente porque aquilo a divertia, mas tambm porque conseguia
expressar suas ideias com liberdade, inspirando seu raciocnio para
pensamentos mais brilhantes.
- com que ento a senhorita  perspicaz...
- Espero que sim. Meu instinto raramente me engana e chego at mesmo a
sentir as vibraes daqueles que moraram aqui no castelo e dos que
lutaram contra ele. Tais pessoas se tornaram parte cia beleza do lugar.
Simonetta falava sonhadoramente, sentindo que as palavras I lhe  ocorriam
com muita facilidade.
52
- Compreendo o que diz, pois eu sinto o mesmo.
Claro que sente! Os impressionistas treinam-se mais para sentir
do que para ver. Querem alcanar e perceber o que est escondido para as
pessoas comuns.
Gostaria de acreditar que somos assim, embora para mim isso
seja apenas uma mscara e no uma verdade, como o  para a senhorita.
Encantada com o que ele dizia, Simonetta sorriu para Pierre e seus
olhares se encontraram. E foi muito difcil desvi-los...
- Bem... preciso ir.
- Mas antes precisa posar para mim. Se isso puder ajudar, conversarei com
seu professor e perguntarei se ele permite que a senhorita me ajude.
- No! O senhor no deve fazer isso! Conforme j disse, ele ficar
aborrecido por termos nos conhecido de maneira to pouco... convencional.
Pierre Valry ficou intrigado.
- No entendo... A senhorita  uma estudante de arte e, com toda certeza,
seus pais permitiram que partisse para o estrangeiro na companhia de seu
professor. Est vivendo uma vida que, para a maior parte das jovens de
sua idade, parece muito livre e pouco convencional.
- No h dvida, mas no quero que meu professor se zangue com o fato de
eu desperdiar meu tempo conversando, como fazem tantos pintores, quando
na realidade ele quer que eu trabalhe.
- Ento j sabe que isso  um hbito de nossos colegas... observou
Pierre, sorrindo.
- Sim, claro que sei.
- Bem, como a senhorita  livre para fazer o que bem entende, Suplico-lhe
que no estrague meu quadro, recusando-se a voltar. Seu relacionamento
com o professor no me diz respeito, a menos que
me  impea de acabar um quadro que, tenho certeza, ser recebido no
Prximo Salo de Belas Artes como "O quadro do ano".
53
Ambos sabiam que isso jamais aconteceria com um pintor impressionista e
caram na risada, devido  ironia do comentrio.
- Ficarei por cinco minutos - concedeu Simonetta. - Talvez amanh, quando
meu mestre for  taverna, poderei voltar, como aconteceu ontem.
- Para conseguir melhores resultados,  preciso que venha o mais cedo
possvel, antes do sol se pr.
- No seria mais romntico se o senhor pintasse o Templo do Amor  luz da
lua?
- J pensei nisso, mas existem em Ls Baux lugares mais sensacionais,
quando a lua est cheia. J os viu?
- O senhor bem sabe que cheguei ontem.
- Pois deve querer v-los. No quer me fazer uma promessa?
- Receio fazer promessas que talvez no possa cumprir. Sempre tento
manter minha palavra e acho que  desonesto voltar atrs.
- Concordo com a senhorita. Mas no quer me prometer mademoiselle
Simonetta, que me deixar ser a primeira pessoa a lhe mostrar Ls Baux
sob a luz do luar?
- O senhor far isso? - perguntou Simonetta, com os olhos brilhando. - 
algo que quero muito ver, mas somente na companhia de algum que conhea
os melhores lugares, caso contrrio perderia o que h de mais belo.
- Prometo que, tendo a mim por guia, no perder nada.
Por um instante, ocorreu a Simonetta que seu pai ficaria furioso caso
soubesse o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, o duque no lhe
dissera que passearia com ela e que lhe mostraria o luar de Ls Baux e a
jovem pressentia que seu pai gostaria de ir  taverrna   noite seguinte,
sobretudo porque Czanne se encontraria l.
Sua conscincia a acusava e Simonetta achou que deveria encontrar uma
oportunidade de contar ao duque que tinha conhecido Pierre Valry. No
entanto at mesmo seu pai acharia estranho e talvez cell survel que ela
se encontrasse com um homem, quando deveria esta
em casa.
54
- Eu a esperarei amanh  noite - disse Pierre Valry calmamente.
- Se for possvel, eu virei.
Simonetta sabia que estava tomando uma deciso capaz de provocar srias
consequncias.
Era quase como jogar uma pedra num lago de guas muito calmas e perceber
que as ondas s cessariam quando atingissem as margens. Achou, porm, que
estava abusando da prpria imaginao. Seu instinto lhe dizia que poderia
confiar em Pierre Valry.
Queria demais ver Ls Baux  luz da lua e tinha certeza absoluta de que
Pierre no faria nada que pudesse deix-la preocupada.
"Ele  um artista e eu estou tentando s-lo. Este  o lao que temos em
comum", pensou "Alm do mais, ele acharia muito estranho e antiquado se
eu insistisse em ter uma dama de companhia".
- Acho melhor eu me divertir enquanto tiver a oportunidade ela disse a si
mesma, concluindo seus pensamentos com uma atitude de desafio.
Sabia que, assim que voltasse para a Inglaterra e fosse apresentada 
Corte, seria estreitamente vigiada dia e noite, sempre com algum ao
lado, tendo seu pai inclusive j escolhido uma de suas parentas, que
assumiria essa tarefa.
- Uma oportunidade como esta nunca mais se apresentar... Simonetta teve
a impresso de que at mesmo as pedras de Ls
Baux caoavam dela por hesitar em gozar de sua independncia, enquanto a
tinha.
- Virei... prometo que virei... - disse em voz alta e notou que sua
resposta deixara Pierre Valry muito contente. - Bem, agora posarei
durante cinco minutos, caso contrrio meu professor ficar intrigado,
querendo saber o que aconteceu comigo.
No esperou a resposta de Pierre e saiu correndo em direo ao templo. Ao
chegar l colocou-se na posio da vspera, com os braos estendidos e a
cabea jogada para trs.
Simonetta usava um vestido branco e seu corpo parecia misturar-se
55
com as pedras alvas e to antigas do templo. Somente seus cabelos
brilhavam como uma chama. Formavam uma mancha vvida de cor que parecia
danar  luz do sol.
Pierre Valry contemplou-a e certificou-se de que o prprio Botticelli
teria achado difcil capturar a beleza mstica da jovem. Ficou a estud-
la durante um bom momento e em seguida ps-se a pintar com entusiasmo.
Simonetta notou que seu pai ainda estava distrado com a pintura, mas
agora que a luz tinha se alterado, quando o sol j baixava no horizonte,
ela recolheu o material com que trabalhava.
No se sentia muito satisfeita com o que tinha feito e decidiu que
recomearia no dia seguinte. Talvez ento sentisse que sua mo era guiada
por uma fora superior, que a impediria de provocar verdadeiros desastres
a cada pincelada que dava.
Caminhou em direo ao pai. Ele estava to concentrado em seu trabalho
que s percebeu a presena da jovem quando ela falou:
- Acho que vou voltar para casa, papai.
- J?
- Est ficando tarde, e, se vamos jantar com o conde, devo tomar um
banho, mudar de roupa e procurar melhorar um pouco minha aparncia.
- Nunca a vi desse jeito. Sim, creio que devemos nos vestir melhor,
apesar de achar que nossa aparncia dificilmente corresponder 
elegncia do castelo do conde.
- Sabe alguma coisa a respeito dele, a no ser o fato de que apoia os
impressionistas?
- Muito pouco, a no ser que, a exemplo de todos os franceses ricos, ele
vive com grande luxo!
- Em vez de jantar com o conde, preferia que jantssemos no castelo, como
ele era no passado. Como devia ser excitante!
- com efeito, mas no teramos nenhum quadro de Monet para
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admirar, o que, alis,  nossa nica desculpa para perder um tempo que
nos  to precioso.
- Ainda bem que voc no gosta do conde, papai, pois o mesmo acontece
comigo.
O duque no disse nada e limitou-se a olhar para o quadro que tinha
pintado.
- Precisamos mesmo jantar com ele hoje  noite? - perguntou Simonetta
aps alguns instantes.
- Seria falta de educao no comparecer, agora que assumimos o
compromisso. Para falar a verdade, minha filha, ele  o tipo do homem com
que no desejo relacionar-me. Depois de ver os quadros no voltaremos a
nos preocupar com ele.
Simonetta, sem que seu pai o dissesse, sabia que ele estava aborrecido
com os elogios que o conde lhe fizera e com o modo pelo qual ele tinha
beijado sua mo.
-  muito sensato, papai, e  claro que concordo com voc. Sem esperar a
resposta do duque ela se ps a caminho de casa. Quando l chegou
descobriu que Marie tinha preparado um banho
para ela no pequeno banheiro que dava para o quarto de seu pai.
L estavam dois baldes cheios de gua  sua espera, um muito quente e o
outro frio.
Aps banhar-se, ela foi at o quarto, a fim de decidir que roupa usar.
No tinha muita escolha. No trouxera trajes de noite, e, assim, decidiu-
se por um vestido cor-de-rosa, mais apropriado para uma soire, e que
tinha usado quando era mais jovem.
A sra. Baines o reformara, acrescentando-lhe uma faixa e apertando o
busto. O vestido certamente no tinha o ar de ser confeccionado por um
costureiro parisiense, mas ia muito bem para uma jovem e era evidente que
no tinha custado muito dinheiro.
Obedecendo s instrues de seu pai, Simonetta usava o cabelo preso em um
coque. Agora, porm, fez um penteado mais elegante, tomando cuidado para
no deix-lo muito requintado, conforme costuma fazer sua criada em
Londres.
57
- No quero parecer a mendiga no meio de uma festa, mas, ao mesmo tempo,
o conde no deve desconfiar de que sou algo mais do que aparento ser.
Na sua inocncia, Simonetta no sabia que era muito mais perigoso passar
por uma estudante de arte do que por uma criatura bem nascida.
O duque ainda namorava seu quadro quando a carruagem chegou, no tendo
sequer trocado de roupa.
Simonetta, porm, j estava a postos quando o criado do conde, que usava
uma libr pretensiosa e tinha um ar de desdm, apareceu, com ares
petulantes por ter de comparecer a uma casa to pequena e insignificante.
A carruagem chegou, papai! - anunciou a jovem, batendo  porta do quarto
do pai.
- Ela que espere! No consigo encontrar meu colarinho postio. Simonetta
entrou no quarto e achou o que ele procurava em uma
caixa providenciada por Jarvis, o criado do duque. Ela continha no
somente dezenas de colarinhos, mas tambm alguns pares de abotoaduras.
- Como  que eu podia saber onde ele escondeu tudo isto? perguntou o
duque, irritado. - No faltava mais nada, ter de jantar todo engravatado.
No devia jamais ter aceito este maldito convite. Foi um erro, Simonetta.
A gente no deve frequentar a alta sociedade, quando se sente muito mais
 vontade no meio de pessoas marginalizadas!
- Que, alis, so muito mais divertidas...
- Vou para a taverna - decidiu subitamente o duque. - Anuncie ao criado
que no compareceremos ao jantar.
- Mas voc no pode fazer isto, papai! Seria uma grande falta de
considerao. com isso talvez o conde acabe por ter -averso por todos os
impressionistas e no voltar a comprar quadros de nenhum desses
pintores.
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Voc tem razo. H poucos impressionistas que no estejam
desesperados para vender um quadro que lhes permita continuar
sobrevivendo. Suponho que devo sacrificar-me...
- E precisamos convencer o conde a aumentar sua coleo de arte moderna -
observou Simonetta.
O duque ps um casaco de veludo, um tanto surrado, e que usava apenas em
suas viagens secretas.
- Vamos, minha filha. Se temos de nos entediar,  prefervel acabar com
isso o mais rapidamente possvel.
Enquanto falava o duque olhou para sua filha pela primeira vez.
- Por que est to elegante? - perguntou com certa aspereza.
- Elegante, papai?
- Onde esto os vestidos que voc reformou especialmente para esta
viagem?
- Este  um deles.
- Bem, voc est muito chique. Nada de flertar com o conde, e sairemos de
l assim que for possvel.
- Claro, papai. Concordo inteiramente. Como voc, tudo o que quero  ver
os quadros dele.
- Jamais deveramos ter-nos envolvido com esse sujeito! Voltaremos
imediatamente aps vermos os quadros!
Simonetta achou fascinante contemplar a luz do sol que se punha por
detrs das rochas do castelo de Ls Baux e, quando comearam a descer em
direo ao vale, a vista que se estendia diante de seus olhos era
simplesmente fabulosa.
Percorreram estradas onde os ramos das rvores se cruzavam, formando um
verdadeiro tnel de sombra. Deixaram para trs pequeninas aldeias muito
pitorescas.
O trajeto foi feito em meia hora. Atravessaram uma ponte e viram, Por
entre as rvores, as torres e telhados do castelo.
 distncia, o edifcio parecia muito imponente e Simonetta sentiu-se
entusiasmada por ter a oportunidade de conhecer um castelo francs.
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J tinha lido sobre o esplendor de tais construes e seu pai lhe dissera
o quanto eram belos. No entanto, uma coisa era imaginar um castelo e
outra, inteiramente diversa, visit-lo.
Um criado os recebeu, levando-os at um salo to elegante quanto
Simonetta esperava. De suas paredes pendiam os quadros que ela e seu pai
tanto desejavam ver.
O conde os aguardava, muito correto em seu traje de noite. Ao lado dele
encontrava-se uma mulher muito elegante e atraente, cujo vestido deu a
Simonetta a sensao de que usava trapos.
- Seja bem-vindo, monsieur Calvert! - disse o conde, muito hospitaleiro,
caminhando em direo a eles. - O mesmo digo em relao a mademoiselle
Simonetta!  um grande prazer receb-los!
Apertaram-se as mos, mas ele no beijou a de Simonetta, o que a deixou
aliviada.
- Permita-lhes apresentar minha irm, que chegou sem avisar, fazendo-me
uma bela surpresa. A condessa de La Tour, monsieui Clyde Calvert e
mademoiselle Simonetta!
A condessa, que tinha olhos negros e brilhantes como seu irmo, olhou
para o duque com tamanho ar de surpresa que parecia uma insolncia, e mal
tomou conhecimento da presena de Simonetta.
- Meu irmo no me contou que entre os impressionistas havia homens
altos, elegantes e distintos! Isso para mim  uma novidade!
- ela exclamou.
- Madame  muito lisonjeira - replicou o duque.
- Evidentemente o senhor  ingls e isso explica muita coisa afirmou a
condessa.
Ela se exprimia muito bem em ingls. Todavia, o ligeiro sotaque francs
perceptvel em sua fala dava-lhe um toque charmoso, inconfundvel.
Antes do jantar foi servido o champanha, que segundo o conde era
procedente de seus vinhedos em Epernay. Foram em seguida para a sala de
jantar, onde tambm havia quadros de pintores impressionistas pendurados
com destaque.
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Simonetta divertiu-se ao notar que a condessa fazia todos os esforoS
possveis para atrair seu pai e lisonje-lo com uma tcnica que ela no
deixou de admirar.
- Quero lhe falar, mademoiselle - disse o conde, enquanto sua irm
monopolizava o duque.
- Desculpe-me por estar to distrada, mas estou apreciando demais ver
pela primeira vez o interior de um castelo francs.
- Sim, deve ser bem diferente dos outros lugares onde viveu at agora.
Tem um quarto s seu em Paris ou divide um apartamento com outras
estudantes?
Simonetta hesitou. A despeito dos temores do duque, o conde parecia estar
convencido de que ela era uma estudante.
Tinha ouvido seu pai contar que numerosas estudantes rodeavam os
pintores, nos cafs de Paris. Elas procuravam ganhar um pouco mais de
dinheiro posando como modelos nas escolas de arte e para qualquer pintor
que quisesse empreg-las particularmente.
Os impressionistas, entretanto, insistiam em pintar ao ar livre e ter ou
no um modelo vivo no lhes parecia especialmente importante.
O duque explicou a Simonetta que essas estudantes algumas vezes entravam
em conflito com os modelos profissionais, que no admitiam aquela
concorrncia. Muitas vezes a coisa degenerava em brigas, que se resolviam
a tapas e unhadas.
- Sinto muito orgulho de meu castelo, que est em minha famlia h trs
sculos - dizia o conde.
- Ele no foi atingido durante a revoluo?
- Inicialmente tivemos algumas dificuldades, mas os piores crimes foram
cometidos em nossa propriedade de Paris.
- O senhor deve sentir muito orgulho de suas posses!
- O orgulho maior ser poder mostr-las  senhorita!
- Seus quadros so muito interessantes e sinto grande vontade de ver a
pintura de Claude Monet, que  amigo de meu professor.
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- Eu mostrarei os quadros e, espero que, quando a noite termine, a
senhorita tenha se tornado minha amiga.
Ele fez questo de acentuar a palavra "amiga" e Simonetta sentiu que a
palavra com isso adquiriu um significado diferente.
- Conte-me quais so os quadros que adquiriu recentemente. J ouvi dizer
que o senhor tem sido de grande ajuda para os impressionistas, pois eles
sentem grande dificuldade em comercializar seus trabalhos.
- Considero-me um bom apreciador, no que se refere  arte e tenho certeza
de que, no tuturo, aqueles que desprezaram esta nova escola de pintura
tero de engolir suas palavras!
- Espero que sim! Quem sabe nesse momento at mesmo meus quadros sero
valiosos! - observou Simonetta com bom humor.
- No teria a menor dificuldade em vend-los agora, se os confiasse a
mim.
O conde falava em voz baixa. Simonetta achou que deveria dizerlhe que no
precisava de dinheiro, mas era difcil fazer essa declarao sem levantar
suspeitas.
Em vez disso continuou a falar de Claude Monet, Renoir e os outros
impressionistas que lhe vinham  mente. Notou que o conde no a ouvia,
mas no tirava os olhos de seu rosto, encarando-a de um modo que a deixou
constrangida.
No entanto no havia a menor razo para recear o que quer que fosse. Seu
pai estava l e, aps verem os quadros, eles se retirariam. A partir
disso, no precisariam voltar a se incomodar com o conde.
A coisa, entretanto, no era to fcil como parecia. Aps o jantar,
servido  francesa, voltaram para o salo. O conde mostrou-lhes os
quadros e, ao contemplarem o Vero, de Claude Monet, o duque e Simonetta
constataram que ele era to belo quanto esperavam.
O conde tinha tambm dois outros quadros de Monet, um de Manet e outro de
Sisley. Eles recriavam um mundo to mgico que Simonetta julgou que
tivessem vindo de um outro universo, onde s reinasse a fantasia e a
sensibilidade.
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Ficou completamente absorvida, esquecendo-se de onde se encontrava, at
perceber que a condessa tinha levado seu pai para um aposento ao lado do
salo.
Apesar de conseguir v-los atravs da porta aberta e de ouvir suas vozes,
ela e o conde agora se encontravam a ss. Voltou-se instintivamente, a
fim de seguir o duque, mas o conde agarrou-lhe o pulso.
- Quero que converse comigo - disse.
- Mas... quero ver os quadros da sala ao lado...
- Mais tarde haver tempo de sobra para isso.
Simonetta tentou livrar-se dele, mas o conde a segurava com toda fora.
- Por favor... o senhor est me machucando!
- No  verdade e no quero que escape de mim. Voc  bela, Simonetta,
to bela que acho impossvel pensar em quem quer que seja, desde que a vi
pela primeira vez!
Ele falava de um modo to estranho e sua voz revelava uma emoo to
desconhecida que Simonetta o encarou, muito espantada.
Os olhos dele a devoravam e subitamente a jovem sentiu medo. Sabia,
porm, que no devia entrar em pnico. Seu pai encontrava-se na sala ao
lado e o conde no podia fazer nada que a perturbasse.
- No gosto que me toquem - declarou, tentando mais uma vez se livrar do
conde.
- Pois quero toc-la e preciso dizer-lhe algo.
- De que se trata?
Simonetta achou que ele estava se comportando de modo muito estranho, mas
no queria fazer uma cena, pois sabia que isso deixaria seu pai muito
contrariado.
- Calvert  velho demais para voc e, alm do mais, no pode dedicar-se a
uma jovem do mesmo modo que eu. Poderia dar-lhe vestidos que a tornariam
ainda mais bela do que . Comprar-lhe-ia Jias, uma carruagem e um
apartamento em Paris que faria a inveja de qualquer outra mulher.
Deixaremos Ls Baux e eu a levarei diretamente a Paris.
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Simonetta estava to espantada que no conseguia articular sequer uma
palavra.
Em pnico, imaginou o que responderia a uma sugesto to ofensiva quando
notou, com alvio, que o duque voftava para o salo.
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CAPTULO IV

Ao regressar a Ls Baux, Simonetta tinha a impresso de que escapara de
algo mais ameaador e assustador do que o prprio conde.
Estava profundamente chocada e no entendia completamente o significado
da sugesto do conde.
Sabia, porm, que se tratava de algo perverso. Pierre Valry tinha razo,
ao dizer que existiam lobos com pele de cordeiro e que eles, um dia, a
assustariam.
No momento em que seu pai entrou no salo, ela correra em sua direo e
lhe dera o brao.
- Precisa mostrar-me os quadros, professor, caso contrrio no notarei o
que eles tm de mais notvel, o que seria uma pena...
Percebeu que seu pai a encarava fixamente, olhando em seguida Para o
conde. Ele, porm, no disse nada e simplesmente levou-a de volta para a
sala de onde tinha acabado de sair.
L ele a conduziu de um quadro a outro, assinalando o modo muito especial
como o artista tinha pintado a luz, bem como as caractersticas de seu
estilo. Falava com tamanha autoridade que nem mesmo a condessa o
interrompeu.
Simonetta percebia ao mesmo tempo que o conde os tinha seguido
65
e a olhava com uma tal expresso que chegou a sentir medo. Receava que
ele dissesse algo to comprometedor que seu pai acabaria por perceber o
que tinha acontecido.
Felizmente o conde manteve-se em silncio, mas para Simonetta as horas
pareciam se arrastar. Sentia como se estivesse andando na corda bamba. Um
passo em falso e o resultado seria desastroso.
Sabia o quanto seu pai ficaria furioso, se tivesse a menor ideia do que o
conde lhe dissera. Seu primeiro impulso era contar tudo para o duque,
mas, se agisse assim, ele, com toda certeza, a levaria de volta 
Inglaterra no dia seguinte.
- Como papai ou eu podamos adivinhar que o conde seria capaz de se
comportar de maneira to chocante? - perguntou Simonetta a si mesma,
quando partiram.
Enquanto estavam no castelo ela no conseguia pensar em outra coisa que
no fosse estar ao lado de seu pai. com isso impediria o conde de lhe
dizer qualquer coisa mais ntima.
- Quando o veremos novamente, monsieur? - perguntou a condessa ao duque.
Sua voz era terna e sedutora. Simonetta percebeu que, se o conde estava
enamorado dela, sua irm, com toda certeza, sentia grande atrao pelo
duque.
Estava acostumada a ver belas mulheres interessadas em seu pai dirigirem-
se a ele com voz acariciante, num tom ao mesmo tempo provocante e
convidativo.
Tinha certeza de que o duque sabia como lidar com elas, mas, no que lhe
dizia respeito, o conde a aterrorizava.
Tudo o que desejava era afastar-se do castelo e ficar a ss com seu pai
na casinha de tijolos vermelhos, que cada vez mais lhe parecia o lugar
mais seguro do mundo.
Finalmente conseguiram despedir-se.
- Adeus, senhor conde! - disse Simonetta com firmeza.
- At breve! - ele respondeu.
A jovem achou que havia qualquer coisa ameaadora naquela saudao e o
conde parecia revelar a disposio de tornar a v-la.
- Bem, graas a Deus estamos livres! - disse o duque com
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evidente alvio, recostando-se no banco da carruagem, enquanto se
afastavam. - Pelo menos valeu a pena ver os quadros!
Simonetta ainda no tinha certeza se devia contar ao pai o que tinha
acontecido e decidiu que seria melhor ficar calada.
Os quadros so magnficos, papai. Fiquei muito contente em
v-los.
- Creio que o Vero  um dos melhores quadros de Monet observou o duque,
como se estivesse pensando em voz alta.
- No imaginava que Sisley pintasse to bem.
- Conheci-o em Paris, mas rapidamente. Da prxima vez que estiver l,
fao questo de rev-lo.
Conversaram sobre os impressionistas durante todo o caminho de volta.
Simonetta procurava concentrar-se no que estava sendo dito e no no que
tinha acontecido quando se encontrou a ss com o conde.
A noite, ali, naquela estao do ano, chegava tardiamente. Olhando pela
janela da carruagem ela percebeu que as estrelas agora  que despontavam
no cu e que a lua surgia com todo seu esplendor.
No queria pensar em nada, a no ser no que seu pai dizia, e pegou no
brao dele, como se aquilo lhe transmitisse segurana.
Somente quando chegaram em casa  que ela se arriscou a fazer uma
pergunta tmida.
- No h a menor razo... para voltarmos a ver o conde, no  mesmo,
papai?
- De modo algum! Eu notei que ele tentava flertar com voc durante o
jantar e achei que era uma grande impertinncia, mas suponho que a
infeliz condessa esteja acostumada com seu comportamento.
- Uma condessa? Mas ento o conde  casado?
- Claro que sim! Lembro-me vagamente de que ela pertence a uma famlia
muito rica. Imagino que seja com o dinheiro dela que ele compra quadros
para sua coleo.
Simonetta ficou tensa. Agora a atitude do conde lhe parecia mais
detestvel do que antes.
No imaginava, de modo algum, que o conde fosse casado. O
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convite que fizera, de lev-la a Paris, comprar-lhe jias e vestidos era
certamente um insulto, que, em outros tempos, teria de ser reparado por
meio de um duelo.
Sabia que muitas estudantes de arte aceitariam tais propostas, sobretudo
aquelas que eram to pobres conforme seu pai dizia.
Ainda no entendia claramente o que o conde esperava dela, mas sabia que
detestava que ele a tocasse. Se ele por acaso tentasse a beijaar, aquilo com
certeza seria uma experincia horrvel.
- Nunca mais pretendo v-lo - decidiu.
Quando, porm, viu-se a ss em seu quarto, sentiu que o conde
representava uma ameaa e que seria difcil escapar dele.
- Ser que estou abusando de minha imaginao? - pensou em voz alta.
Temia, porm, que o conde no pudesse ser evitado to facilmente. Ele era
to convencido que, sem dvida, acreditava que poderia conquist-la.
Ele no pode me fazer nada, pois estarei sempre na companhia de papai,
pensou Simonetta.
Refletiu logo em seguida que, se no estivesse com o duque, procuraria a
proteo de Pierre Valry.
De acordo com o que Pierre tinha dito naquela manh, era evidente que ele
no gostava do conde. E com inteira razo, pensou a jovem decidindo que,
se acaso no pudesse contar com seu pai, talvez devesse comunicar a
Pierre Valry o que tinha acontecido.
Era humilhante que um homem pudesse pensar que ela se disporia a
acompanh-lo a Paris e aceitar presentes caros, mesmo que ela fosse uma
estudante de arte.
- Se eu fosse pobre, ainda assim seria honesta e, depois, nem todas as
estudantes de arte se comportam mal - concluiu.
Lembrou-se da recomendao de Pierre Valry, de que era perigoso uma
mulher bonita andar sozinha, mas, por outro lado, a companhia de certos
homens era ainda mais perigosa. Isso jamais tinha ocorrido a Simonetta.
O que quer que acontea, no devo estragar a viagem de papai e no devo
deix-lo preocupado, refletiu.
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Sabia que, se algo perturbasse a paz daqueles dias, o duque nunca mais a
levaria em suas viagens!
Como seria frustrante se tivesse de ficar em casa, ainda que na
companhia de sua tia Harriet, to querida!
Sabia que, se mantivesse a calma, nada teria a temer e que seu pai no
deveria tomar conhecimento do que tinha ocorrido.
Quando desceu para o caf da manh encontrou-o de excelente humor.
- Sinto que ser um dia perfeito para se pintar e que tudo sair bem -
ele declarou. - Talvez isso se deva ao excelente vinho que tomamos ontem
 noite, muito diferente do que me servem na taverna. Minha cabea est
leve e sinto-me vinte anos mais jovem.
- No fique jovem demais, papai, ou serei muito velha para passar por sua
filha.
- Voc est muito bonita, meu bem! Cuidado para no tomar muito sol. Sua
pele  clara e, como voc bem sabe, os poetas e, principalmente os
trovadores, cantavam a beleza da pele alva de uma mulher.
- Precisamos aprender algo a respeito dos trovadores enquanto estamos
aqui.
- No se incomode, aprenderemos.
Simonetta sabia, porm, que o duque no se interessava por aquele assunto
e pensava unicamente em sua pintura.
Foram para o campo assim que acabaram de tomar o caf e pintaram sem
parar at a hora do almoo.
- J que voc quer tanto conhecer Paul Czanne, irei at a taverna. Tenho
certeza de que ele est l com os amigos e o convidarei Para jantar
conosco hoje  noite - disse o duque, quando voltavam Para casa.
- Seria esplndido, papai - disse Simonetta, mas seu corao disparou.
Por mais que quisesse conhecer Czanne, isso a impediria de manter a
promessa que tinha feito a Pierre Valry. No podia dizer absolutamente
nada e aps o almoo, alis excelente, o duque anunciou Seus planos.
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- Bem, agora vou  taverna. Espere-me voltar e, enquanto isso pode
terminar aquela vista do jardim, que comeou no primeiro dia.
- Sim, papai.
O duque partiu com um sorriso nos lbios, o que indicava que estava
ansioso por encontrar Czanne, cujos quadros costumava descrever com
frequncia.
Simonetta esperou durante uns dez minutos e em seguida saiu correndo na
mesma direo, pois o caminho da taverna tambm passava pelo Templo do
Amor.
Rezava para que Pierre Valry estivesse l, mas temia que ele estivesse
almoando e nesse caso se desencontrariam.
Suas oraes foram desnecessrias, pois ele estava sentado no mesmo
lugar, diante do cavalete. Ao v-la, Pierre levantou-se, demonstrando
seu contentamento.
- Tive de vir e lhe contar o que est acontecendo - disse Simonetta,
quase sem flego.
- O que foi?
- Meu professor foi at a taverna convidar Paul Czanne, deve chegar
hoje, para jantar conosco.
- E acha que isso a impedir de vir posar para mim?
- Receio que sim.
- H muitos obstculos que me impedem de terminar meu quadro.
- Sinto muito... muito mesmo!
- No  sua culpa, mas no deixo de ficar desapontado.
- Sim, entendo. Espero podermos marcar outro encontro, mas no momento no
sei para quando.
- E que tal foi o jantar com o conde?
- Horrvel!
- O que aconteceu?
Simonetta percebeu, tarde demais, que seria melhor no confiar em
ningum e muito menos num estranho.
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- No tem importncia. Deixe-me ver seu quadro.
- Conte-me o que aconteceu. Quero saber!
- No,  melhor no tocarmos no assunto.
- Fao questo! Olhe para mim, Simonetta!
Ela no se mexeu e no tirava os olhos do Templo do Amor, cujas pedras
brilhavam  luz do sol.
- Acho que aconteceu algo que a deixou chocada.
Simonetta ficou surpreendida com a perspiccia de Pierre, mas
seria muito humilhante contar-lhe a sugesto do conde.
 - No quero falar a respeito.
- Eu a preveni em relao aos lobos vestidos com pele de cordeiro!
- Cheguei  concluso de que voc tinha razo, depois do que sucedeu.
- Mas o que foi que aconteceu? Conte-me!
Simonetta no disse nada e Pierre segurou-a pelos ombros, obrigando-a a
encar-lo.
- Olhe para mim. Conte-me o que houve, pois  importante demais para mim
saber o que a deixou to preocupada e chocada.
- No quero que voc saiba...
- Ele tocou em voc? Se fez isso, juro que o matarei!
O modo como ele se exprimia era to surpreendente que Simonetta o encarou
e no conseguiu mais desviar o olhar.
- Ele tocou em voc? - repetiu Pierre.
- No... no. Apenas fez uma sugesto indigna. No sabia que os homens
eram assim.
- Assim como?
- O conde... sugeriu me levar a Paris... e me comprar jias! Ele me
viu... apenas uma vez!
- E o que foi que voc respondeu?
As mos dele ainda estavam em seus ombros e Simonetta sentiu a energia
com que ele a segurava. Pierre era forte e poderia proteg71
la contra o conde e contra qualquer outra coisa que a assustasse e a
ameaasse.
- No precisei dizer nada, pois meu... professor voltou para o salo, em
companhia da irm do conde, que tambm se encontrava l.
Embora no dissesse nada, era mais do que evidente que Pierre Valry
estava indignado.
-  Voc no deve voltar a v-lo!
- Espero que isso jamais acontea! Como meu professor tambm no quer v-
lo, tentarei esquecer que ele... me insultou.
- No consigo entender por que seus pais, caso ainda vivam, permitiram
que voc se tornasse estudante de arte, sem exigir que algum cuidasse de
voc, e deixaram-na vir para a Frana na companhia de um homem muito mais
velho, que pode dar s pessoas uma ideia muito errada a seu respeito. .
- Uma ideia errada? O que quer dizer com isso? Que ideias erradas os
outros podem ter, quando me encontro na companhia de meu professor?
- Refiro-me s ideias que ocorreram ao conde, pois ele deve ter pensado
que sua vida  muito diferente do que ela se apresenta na realidade.
Como estava cansada de ficar em p, Simonetta sentou-se na relva, ao lado
do cavalete de Pierre.
- No entendo o que voc est querendo dizer com isso.
- Vamos falar de outra coisa - ele props, sorrindo. - Tenho certeza de
que voc acha o conde um assunto bastante aborrecido.
- Nunca mais quero sequer pensar nele!
- Pois ento falemos de algo realmente interessante, como, por exemplo, o
templo que estou tentando pintar, com voc parada na porta.
- Este templo  to belo... Ainda na hora do almoo eu dizia que,
enquanto estiver aqui, quero aprender mais a respeito dos trovadores, de
suas canes e poemas.
- Infelizmente no sobrou muita coisa para estudarmos daquela poca.
72
Isto  muito decepcionante para mim.
Simonetta espiou a estrada, receosa de ver seu pai voltando da taverna.
Logo em seguida levantu-se.
- Agora no posso ficar, mas voltarei, para conversarmos mais.
- Se no voltar, ficarei muito aborrecido. Bem sabe que, sem voc, meu
quadro no prestar.
- No encare as coisas desta maneira. Prometo-lhe que farei todo o
possvel para vir encontr-lo, to logo o possa. Se acaso partir, voc me
avisar? - ela perguntou, aps hesitar alguns segundos.
- Claro!
- Voltarei o mais cedo possvel.
- Espere um minuto! - pediu Pierre, quando ela comeou a se afastar. -
Sugiro que se encontre comigo hoje  noite ou talvez amanh  noite, para
que eu possa mostrar-lhe Ls Baux  luz da lua.
- Mas como  possvel?
- Quem sabe aps o jantar seu professor voltar com Czanne  taverna, a
fim de se encontrar com os outros artistas... Ou se ele dormir... voc
poder vir a meu encontro.
- Ser difcil, mas tenho tanta vontade de ver o luar iluminando os
rochedos...
- Pois ento eu a esperarei, at ter certeza de que  tarde demais
e que sua vinda  impossvel.
- Obrigada. Voc  muito gentil...
Simonetta sorriu e saiu correndo. Passou rapidamente pela cerca de
lavandas e desapareceu por entre as rvores.
Pierre Valry viu-a se afastar sem se mexer. Da a pouco suspirou e
recomeou a pintar.
Simonetta olhou para Paul Czanne,  mesa do jantar, e achou que ele
tinha uma fisionomia muito interessante.
A testa muito alta dava-lhe uma aparncia de grande inteligncia e,
embora a barba escondesse boa parte de seu rosto, os olhos, escuros e
msticos, davam  jovem a sensao de que ele vivia num mundo muito
prprio.
73
Czanne tinha uma voz estranha porque articulava as palavra-, com muito
cuidado, com o sotaque rstico de sua terra, o que con trastava com suas
maneiras exageradamente polidas.
Ele era o tipo do homem a quem seu pai considerava "uma pessoa de
verdade".
As coisas que ele dizia, as novas ideias que exprimiu durante o jantar
eram exatamente o que seu pai gostaria de ouvir sobre a Arte. sobre o
mundo inteiramente diverso daquele em que o duque se movia.
As ideias de Czanne cobriam temas to diferentes que Simonetta as ouviu
com profunda ateno, percebendo que jamais se esqueceria daquela noite,
quando voltasse para a Inglaterra e se tornasse apenas uma moa de
sociedade, de quem no se esperava nada, a no ser que se divertisse
muito.
Percebeu que o artista desprezava a sociedade e at mesmo companhia
dos artistas contemporneos. Czanne era, sob muitos aspectos, um
verdadeiro "Lobo Solitrio", um homem estranho, imprevisvel e fora do
comum. Ainda assim conseguia compreender por que o duque valorizava
aquela amizade, ficando muito lisonjeado com uma declarao do pintor
francs:
- Vim a Ls Baux apenas para v-lo. Amanh regressarei  minha cidade.
Acho intolerveis esses pintores pretensiosos que se encontram aqui!
Assim que o jantar terminou, Simonetta tentou no pensar que Pierre
Valry a esperava. Aps alguns instantes Czanne mostrou-se inquieto.
- Acho melhor voltar para a taverna e ver se meus supostos amigos
encontraram um lugar onde eu possa dormir - declarou o pintor.
- Gostaria de poder oferecer-lhe uma cama, mas, infelizmente, dispomos
apenas de dois quartos - disse o duque.
- No tem importncia. Calvert, vamos passear  luz do luar e beber  sua
beleza, antes de ouvirmos a conversa fiada daqueles que acham que tudo
sabem a respeito da natureza.
74
O duque riu e levantou-se. Czanne desejou boa-noite a Simonetta e
retirou-se. Antes de sair o duque dirigiu-se a sua filha.
- V dormir, meu bem. Tentarei no acord-la quando voltar e,
evidentemente, ser muito tarde.
- Divirta-se, papai.
O duque retirou-se precipitadamente, atrs de Czanne, que j o esperava
na estrada.
Simonetta esperou um pouco, at eles se afastarem. Ali estava a
oportunidade de ir ao encontro de Pierre Valry e ver o luar.
Tinha certeza de que estaria de volta antes de seu pai regressar. Tomou
uma atitude bem prtica e levou a chave da porta dos fundos, caso ele
chegasse antes e se trancasse por dentro.
- Levando em conta que nunca me deixaram sozinha antes, at que estou me
saindo muito bem - ela concluiu.
Gostaria de poder impressionar os outros com sua esperteza, mas sabia que
no devia falar com ningum a respeito do que estava acontecendo.
- Afinal de contas, sou uma estudante de arte - disse com seus botes. -
No  nem um pouco censurvel que eu v espiar o luar com outro pintor.
Eram palavras corajosas, mas ao mesmo tempo sua conscincia a acusava,
pois sabia que estava enganando seu pai e fazendo algo que ele censuraria
violentamente.
Ele no reprovaria Pierre Valry tanto quanto reprova o conde, se
soubesse como esse mau carter se comportou em relao a mim, argumentou.
Receosa de que a educao severa que tinha recebido acabasse por dominar
sua vontade, Simonetta saiu correndo estrada afora, como se estivesse
fugindo no somente de casa, mas de si mesma.
Quando chegou  cerca de lavandas, Pierre Valry estava  sua espera.
- Vi os dois homens caminhando em direo  taverna. Resolvi esperar e
ver se voc teria suficiente coragem para vir a meu encontro, conforme
prometeu.
75
- Pois c estou.
- Sim, e eu lhe sou muito grato por isso. Vamos! Temos muito o que ver,
antes de chegar a hora de voc voltar para casa.
Pierre segurou o brao de Simonetta e ela achou esse gesto muito natural.
Desceram pela estrada e tomaram um atalho que subia por uma colina. A
jovem percebeu que eles seguiam pelas rochas, no topo das quais tinha
sido construdo o castelo.
A subida era cansativa e Simonetta teria achado difcil orientar-se pelo
caminho, se Pierre Valry no lhe segurasse a mo.
Subiram cada vez mais alto, at que de repente viram o luar em todo seu
esplendor e Ls Baux a seus ps. Os rochedos muito alvos eram de uma
beleza indescritvel e misteriosa.
As runas do castelo combinavam com a magia que se irradiava da lua. Mais
tarde Simonetta achou que tinha sido como que hipnotizada e levada de
volta ao passado.
Pareceu-lhe que o castelo era habitado por princesas de outrora, ardentes
e, ao mesmo tempo, ternas, que se diziam descender de Baltazar, um dos
trs reis magos.
As princesas eram servidas por belas mulheres de longos vestidos, os
cabelos atados por prolas e elas recebiam as homenagens dos trovadores,
que lhes faziam serenatas.
Cantigas de amor vibravam na atmosfera, mas Simonetta no tinha certeza
se ouvia a voz de um trovador ou a de Pierre Valry, que recitava poemas.
A voz do pintor, baixa e profunda, parecia fazer parte das sombras que os
envolviam e era to irreal quanto a prpria lua.
Percorreram as runas do castelo e contemplaram a plancie de Avignon,
varrida pelos ventos.  distncia encontrava-se a regio selvagem da
Camargue, cujas costas eram banhadas pelo mar, que brilhava como uma
serpente de prata.
Atrs deles estava uma cadeia de montanhas e seus altos cimos pareciam
misturar-se com o cu.
Pierre, com muita ternura, tomou Simonetta pelo brao e levou-a de volta
para o ponto onde tinham se encontrado. A jovem sentia
76
que estava sendo levada do paraso para um mundo do qual nem queria mais
se lembrar.
Somente quando a casinha de telhado vermelho estava diante deles,
Simonetta sentiu que conseguiriam conversar normalmente, embora tivessem
dialogado o tempo todo sem recorrer s palavras.
- Agora voc viu Ls Baux sob o luar - murmurou Pierre com suavidade.
- Jamais esquecerei essa noite.
- Claro que no. Foi um presente que lhe dei. Nada ou ningum poder
tir-lo de seu corao.
- Como voc consegue entender que  isso mesmo o que sinto?
- Porque  o que eu tambm sinto. Estar com voc numa noite como esta 
algo de que me lembrarei para sempre.
- Eu tambm.
Eles estavam parados, iluminados pelo claro da lua, e Simonetta encarou
Pierre, tentando encontrar palavras que conseguissem exprimir o que ela
sentia.
Seus olhares se encontraram e ela teve a sensao de que ele queria
beij-la.
De repente percebeu que era exatamente isso o que ela desejava. Seria um
final perfeito para uma noite maravilhosa.
Simonetta, que nunca tinha tido essa experincia, imaginava que talvez
nunca mais viesse a t-la.
Os dois ainda estavam se olhando e Simonetta esperou, sentindo enorme
dificuldade em respirar. De repente, num tom de voz rspido, que rompia a
fragilidade do encanto que os atraa, Pierre Valry manifestou-se:
- Agora temos de nos dar boa-noite e voc precisa ir se deitar,
Simonetta.
Era como se ele tivesse jogado um copo de gua fria em seu rosto!
Ela sentia vontade de gritar, pelo fato de ele ter destrudo algo to
precioso. Era quase um crime Pierre ter agido assim. Simonetta levantou
as mos, num sinal de protesto, como se Pierre a tivesse
77
agredido fisicamente, mas ele j caminhava em direo  casa. S lhe
restava segui-lo.
- Por favor, Pierre, espere por mim - ela suplicou, com a sensao de que
ele iria desaparecer e de que nunca mais voltaria a sentir aquele
encantamento.
Ele esperou e ela teve a impresso de que a expresso de seu olhar se
havia modificado. Agora uma expresso severa tinha tomado conta de seu
rosto e subitamente Simonetta sentiu-se por demais jovem e desamparada.
- Mas o que foi que aconteceu? O que fiz? Por que voc se alterou?
- Voc tem de ir para a cama.  tarde demais para ficar fora de casa.
Mais uma vez ele se afastou e a jovem, desesperada, pensou o que o teria
deixado to perturbado. Seguiu-o atravs do pequeno jardim e chegaram 
porta da frente.
Pierre ficou parado, na atitude de quem ia desejar-lhe uma boanoite.
Foi ento que Simonetta percebeu que a porta estava aberta, muito embora
a tivesse trancado. com um aperto no corao, receou que seu pai j
estivesse l dentro.
Ele certamente ficaria indignado com sua atitude e a jovem respirou
fundo, como se isso lhe desse coragem para suportar o que viesse.
Nesse exato momento algum dentro da casa levantou-se de uma cadeira e
veio caminhando em direo  porta, abrindo-a de uma vez.
Era nada mais, nada menos do que o conde!
Durante alguns segundos Simonetta teve a impresso de que estava sendo
vtima de uma iluso.
- Estava  sua espera. Onde esteve? E quem  este senhor? Ele encarava
Pierre Valry com hostilidade e o rapaz respondeu
imediatamente.
- A pergunta que se impe  outra. O que est fazendo aqui e que direito
tem de esperar por mademoiselle?
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No tenho a menor ideia de quem seja o senhor, mas meu
assunto  com mademoiselle. Sugiro, portanto, que se retire, e, quanto
mais cedo, melhor!
- No, por favor... - protestou Simonetta, angustiada. - Ele no deve
partir e no posso receb-lo, monsieur, na ausncia de meu professor.
Simonetta estava to confusa que quase disse "meu pai", mas felizmente
conseguiu controlar-se a tempo. O conde voltou para a sala de estar, onde
havia vrias velas acesas.
- Entre, Simonetta! - ele disse em tom autoritrio. - Feche a porta para
este sujeito impertinente que a trouxe para casa.
Simonetta olhou para Pierre Valry com ar de splica e o rapaz passou por
ela, enfrentando o conde. Ele era mais alto e mais forte que o conde e a
jovem, aliviada, esperou que Pierre pudesse proteg-la.
Muito nervosa, ficou de lado, enquanto os dois homens se encaravam
agressivamente. Nenhum deles falava, esperando que o outro se
manifestasse.
- J lhe disse para ir embora - declarou finalmente o conde.
- No tenho a menor inteno de faz-lo, enquanto voc no se retirar.
- Cabe a mim decidir. Saiba que no aceito ordens de um jooningum, que
no tem o menor direito de procurar a companhia de mademoiselle na
ausncia de seu professor.
- No vamos discutir, senhor conde. Est indo embora ou devo p-lo daqui
para fora?
- Pelo visto sabe quem eu sou - disse o conde, indignado. Nesse caso sabe
que tenho influncia no somente aqui, mas tambm em Paris. Ou se retira
ou garanto que tudo farei para estragar sua vida!
- O senhor est tentando fazer chantagem comigo, o que no me surpreende.
Isto apenas confirma minha opinio, de que o senhor no  o tipo do homem
que possa ser deixado a ss com uma jovem!
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- Seu canalha! Seu cafajeste! No tolero seus insultos! - esbravejou o
conde.
O conde fez um gesto ameaador e era exatamente isso que Pierre esperava.
Ele agarrou o conde pelo brao, imobilizando-o e levando-o para o jardim.
O conde debateu-se, tentando se livrar e, ao mesmo tempo, proferia uma
srie de insultos. No fundo, estava to espantado diante da coragem e da
ousadia de Pierre que, quando o rapaz o soltou, ele tropeou e caiu,
ficando ainda mais indignado.
O conde respirou fundo, tentando recompor-se, e foi ento que Pierre
trancou a porta. O rapaz apoiou-se contra ela e ficou de olhos pregados
em Simonetta, que tremia sem parar.
Ainda assim havia um brilho em seu olhar. Era grata a Pierre por t-la
salvo do conde e por no ter de ficar a ss com aquele homem pegajoso.
Horrorizada com tudo o que tinha acontecido, gritou e procurou o amparo
de Pierre. Sentiu que ele a tomava em seus braos e, quando se dispunha a
agradecer, os lbios dele procuraram os seus.
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CAPITULO V

Durante alguns instantes Simonetta s conseguia pensar no quanto os
braos de Pierre eram fortes e protetores. Estava salva!
A presso de seus lbios levou-a a sentir que ele estava lhe dando o luar
e a magia que tinham acabado de contemplar no castelo.
Ele a levou para o pas das fadas, com o qual tanto sonhava, o pas dos
trovadores e do amor.
Tudo aquilo era to perfeito e maravilhoso que Simonetta sentiu que sua
alma tinha deixado o corpo. Todo seu ser estava mergulhado em luz e
pairava -acima do mundo, indo de encontro aos deuses.
Pierre segurou-a com mais fora, puxando-a para si, e beijou-a com ardor,
at Simonetta sentir que ele lhe tinha roubado a alma e o corao,
tornando-os dele.
Tudo aquilo era to perfeito, to glorioso e, ao mesmo tempo, to sagrado
e divino, que a jovem teve certeza de que estava diante do que os
impressionistas tentavam retratar em seus quadros, diante da luz do amor
que vinha de Deus.
No teve a menor ideia do tempo que durou aquele beijo. Sabia apenas que
a exaltao e o xtase -provocados por ele estavam acima do tempo e
poderiam ter durado alguns segundos ou muitos sculos.
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O que ele estava dando e recebendo dela era um amor eterno, que jamais
poderia morrer.
- Minha querida! - disse Pierre, num tom de voz que ela mal conseguia
reconhecer. - No pretendia que isso acontecesse...
Simonetta, percebendo o que tinha acabado de suceder, escondeu o rosto no
peito de Pierre, num acesso de timidez. Ele a apertou de encontro a seu
corao e a jovem teve a sensao de que Pierre lutava contra ele mesmo,
muito embora ela no entendesse a razo daquele procedimento.
- Estou agindo mal - ele declarou finalmente. - Eu devia ter me retirado
para sempre, no dia em que nos conhecemos.
- No sabia... no imaginava que um beijo pudesse ser to maravilhoso,
to perfeito! - declarou Simonetta, sem entender claramente o que ele
dizia.
- Foi assim que voc se sentiu?
- Sim... Era como o luar, como a luz que voc tenta pintar. Agora entendo
o que ela significa para voc.
A voz de Simonetta tremia, diante da intensidade de seus sentimentos.
- Voc nunca foi beijada?
- No, claro que no.
- Oh, meu amor,  exatamente o que pensava.
Pierre voltou a beij-la com paixo e Simonetta abandonou-se to
completamente que tinha a impresso de que seus corpos se fundiam.
- Agora preciso deix-la. Seu professor no deve encontrar-me aqui,
quando voltar.
- Mas... e se o conde aparecer? - perguntou Simonetta em pnico.
Sentia que tinha regressado das estrelas, a fim de encarar os problemas
que a atormentavam, antes que Pierre a transportasse para o cu com seus
beijos. Voltava a ter medo e, trmula, abraou-o.
- Por favor, no me deixe! - suplicou. - Sinto medo do conde!
- Prometo que ele no a importunar. Ficarei vigiando do lado
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de fora da casa. Creio que h muitas explicaes a serem dadas e sei que
voc est cansada.
pierre se exprimia com tamanha compreenso e considerao que Simonetta
sentiu-se protegida. Suspirou e apoiou a cabea em seu ombro.
- E se voc no estivesse aqui comigo?
Mas eu estava. Agora quero que v dormir, meu anjo. Amanh
venha me encontrar assim que puder e tentaremos pensar na melhor atitude
a ser tomada.
- Quero que voc me beije...
- Eu tambm quero, mas preciso tomar conta de voc. Tenho de proteg-la
no somente do conde, mas tambm de mim...  uma grande angstia partir,
mas tenho de deix-la. Boa noite, minha pequena deusa. No se preocupe
com nada.
- Prometa que no me abandonar!
- No se preocupe. No pense em mais nada, a no ser na beleza que
presenciamos hoje  noite e na maravilha que foi nosso primeiro beijo.
Pierre ficou a contempl-la  luz das velas e no se conteve.
- Como  que voc pode ser to bela e, ao mesmo tempo, to pura?
Simonetta ficou sem saber o que dizer durante alguns instantes. Entendia,
sem que fosse necessrio acrescentar outras palavras, o que Pierre queria
dela. Sorriu para ele e subiu a escada, em direo a seu quarto.
Tinha vontade de voltar a descer, abra-lo e lhe pedir que a beijasse
mais uma vez. Fez, porm, um esforo sobre-humano e fechou a porta do
quarto, ouvindo que, da a pouco, Pierre abriu a Porta da rua e se
retirou.
A janela do quarto dava para os fundos da casa e no poderia v-lo
atravessando o jardim. Sabia, porm, que ele agiria conforme tinha
prometido. Ficaria em viglia l fora at o duque voltar. No Precisaria
recear nada.
Lentamente, como se estivesse mergulhada num sonho, Simonetta
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despiu-se. Somente ao deitar-se sentiu que tudo o que tinha acontecido
devia ter feito parte de um sonho. Aquilo era perfeito e maravilhoso
demais para ser real.
Ouviu a porta da frente abrir-se. Seu pai tinha voltado.
Simonetta despertou com a sensao de que tinha sonhado algo maravilhoso
que desejava segur-lo com as duas mos para no deixar escapar.
Lembrou-se do que tinha ocorrido na vspera e o beijo de Pierre tornou-se
to presente que imaginou-se em seus braos.
- Eu o amo! - disse a si mesma.
Acaso ele estaria pensando nela e sentindo o mesmo?
Refletindo melhor no que tinha acontecido, chegou  concluso de que
algumas das coisas que Pierre lhe dissera a tinham deixado intrigada.
Por outro lado, era difcil recordar algo que no fosse o deslu bramento
que ele lhe tinha proporcionado e a sensao de que tin encontrado a luz
que inspirava os impressionistas.
Como  possvel existir algo mais belo ou maravilhoso?, pensou.
Sabia que a nica coisa que importava era voltar a experimentar aquele
sentimento. Precisava certificar-se de que Pierre a amava
verdadeiramente. Vestiu-se s pressas, percebendo que a manh estava
radiosa. O perfume da floresta chegava a dar tonturas. Parecia que uma
nova vida pulsava nela, dando-lhe vontade de danar, cantar e voar em
direo ao cu.
Simonetta foi para o jardim. Os rochedos pareciam brilhar com nova
luminosidade. Gostaria de poder capturar sua magia e transport-la
para a tela com um talento que tornaria sua beleza eterna.
Pensava na luz quando o duque se aproximou.
- Voc se levantou muito cedo, meu bem, isso nos dar mais tempo para
pintar.
Simonetta precisou fazer muita fora para regressar daquele mun do
encantado em que pairava.
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Divertiu-se ontem  noite, papai?
- Sim, foi muito interessante. Czanne falou e era quase uma conferncia
para alguns dos jovens artistas que se encontram aqui pela primeira vez.
Achei suas palavras muito instrutivas e esclarecedoras.
- Que bom, papai!
- Mais tarde voltarei ao assunto. Agora s quero o caf da manh. Espero
que Marie no nos deixe com fome...
Marie j vinha da cozinha e punha sobre a mesa uma cestinha com pes
sados do forno. Havia tambm manteiga de boa qualidade, caf e um mel da
Provena, de um sabor e um cheiro muito especiais.
Comeram em silncio e ao fim da refeio finalmente o duque se
manifestou.
- Terminei meu quadro e descobri outro lugar, a certa distncia daqui,
com uma vista que muito me interessa.
Simonetta percebeu que, se eles se afastassem da casa, ficaria longe de
Pierre.
- Mas ainda no acabei o meu, papai.
- Acho que voc est demorando demais. Mostre-me o que fez at agora.
Simonetta hesitou um pouco, pois temia que seu pai achasse que tinha
perdido tempo, mas acabou indo buscar a tela.
- Pelo que vejo, voc est tentando copiar Monet - disse o duque,
sorrindo. - No  um esforo intil. Embora ele seja um artista que muito
admiro, seria melhor se voc seguisse seu prprio instinto e pintasse
como bem entendesse, em vez de pintar como acha que deve ser.
- Voc  to observador, papai! - disse Simonetta, rindo. Tem toda razo
e  o que tentarei fazer. De qualquer modo estraguei este quadro.
Simonetta ps a tela de lado e pegou uma outra, em branco.
- O que h de incrvel na pintura - observou -  que a gente sempre pode
comear tudo de novo.
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- Infelizmente no podemos fazer o mesmo com nossas vidas - observou o
duque com severidade.
Simonetta pensou que no tinha o menor desejo de esquecer o que tinha
acontecido na vspera. Sua vontade era correr para Pierre. No gostaria
de ficar distante dele sequer por um momento.
No que dizia respeito ao conde, porm, esforava-se para expulslo
completamente de seus pensamentos. Depois do que tinha se pssado na
vspera, talvez ele nunca mais quisesse v-la e cessaria de persegui-la.
Era a melhor coisa que poderia acontecer, mas Simonetta tinha a
desagradvel sensao de que o conde, por ter sido humilhado por Pierre,
procuraria vingar-se.
E se ele prejudicar Pierre?, pensou a jovem, preocupada. Ele estava
falando srio quando declarou que faria de tudo para estragar a vida de
Pierre, quem sabe ele nunca mais vendesse um quadro.
Como poderia impedir que isso acontecesse? Subitamente Simonetta sentiu
medo. Tinha ficado to feliz ao acordar, quando s conseguia lembrar dos
beijos mgicos que Pierre lhe dera... Agora, uma nuvem escura cobria o
cu radioso e essa nuvem era o conde.
- O que farei? - perguntou-se Simonetta. Talvez a atitude mais sensata
fosse contar para seu pai o que tinha acontecido.
Sabia, porm, que ele no somente ficaria horrorizado, mas lhe daria
ordens de fazer imediatamente as malas. Talvez nem mesmo lhe permitisse
dizer adeus a Pierre.
No ouso contar nada a meu pai, pensou.
O duque pegou o cavalete e o material de pintura, apressando Simonetta.
- Vamos. Precisamos andar bastante at o local onde quero comear um novo
quadro. Quando falei disso a Czanne, ele disse que era um cenrio que
ele mesmo gostaria de pintar.
Simonetta percebeu que nada do que ela dissesse poderia fazer seu pai
mudar de ideia. Conformou-se em pegar a tela e as tintas e em segui-lo.
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Foram at um lugar pitoresco, onde os rochedos se elevavam de um lado. Do
outro, havia um ribeiro deslizando por entre arbustos floridos. Era uma
paisagem que faria as delcias de qualquer artista.
O duque levou algum tempo para colocar o cavalete na posio em que
desejava. Assim que ele se acomodou, Simonetta, sabendo que seu pai no
gostava de ser perturbado, afastou-se alguns metros e arranjou seu
material para tambm comear a pintar.
Somente quando comeou a dar as primeiras pinceladas percebeu que era
difcil pensar em algo que no fosse Pierre, no calor de seus braos e no
toque de seus lbios.
Ele lhe tinha proporcionado um xtase que era mais maravilhoso do que
tudo que ela tinha conhecido at ento.
Preciso v-lo, pensou. Preciso v-lo, a fim de podermos conversar,
conforme combinamos.
O destino a ajudou. Quando voltaram para o almoo, Marie, enquanto servia
os pratos deliciosos que tinha preparado, fez um comentrio.
- Vai fazer muito calor depois do almoo. Nunca vi o sol to quente nesta
poca do ano. A senhorita faria muito bem se ficasse em casa e
descansasse, at refrescar um pouco.
- No  m ideia - disse o duque. - Por que no repousa antes de ir me
encontrar?
O corao de Simonetta disparou.
- Tem certeza de que no se sentir sozinho sem mim, papai?
- Mesmo no sendo muito comunicativo enquanto estou pintando, ainda assim
gosto de t-la em minha companhia e saber que voc se encontra por perto
- disse o duque com um sorriso. - Ao mesmo tempo, no quero que voc se
canse demais. Est com muito boa aparncia, mas a pintura exige muito
esforo e voc tem trabalhado demais, desde que chegamos.
- Pois ento seguirei sua sugesto, papai, e descansarei at o calor
diminuir.
- A est uma resposta sensata - declarou o duque.
Ele pouco se demorou aps o caf e partiu, ansioso por voltar a pintar.
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Simonetta foi para o quarto e deitou-se, at perceber que Marie tinha ido
embora, aps lavar a loua do almoo e limpar a cozinha.
Aps esperar alguns momentos at Marie desaparecer na estrada que levava
 aldeia, saiu correndo em direo ao Templo do Amor.
Pierre j se encontrava l, conforme o combinado.
Simonetta correu a seu encontro e sentiu que seu corao batia com toda
fora. Nunca tinha ficado to excitada e to entusiasmada em toda sua
vida, pois iria rev-lo. Estendeu as mos para ele, emocionada
- Oh, Pierre!
Ele ficou parado, olhando para ela, e em seguida pegou em suas mos,
beijando uma aps outra.
- O que aconteceu ontem  noite... foi verdade, no  mesmo?
- perguntou a jovem.
- Para mim foi uma grande verdade, mas preciso conversar con voc.
- Claro. S consegui vir porque meu professor achou que seria melhor eu
repousar, devido ao calor.
- Qualquer que tenha sido a razo, fico contente por voc estar aqui.
- Para mim  maravilhoso saber que estou em sua companhia e que voc me
faz sentir segura.
- Sente-se, querida - disse Pierre, apertando a mo de Simonetta. -
Preciso lhe falar e no ser fcil.
Havia qualquer coisa no tom com que ele se exprimia que levou Simonetta a
encar-lo, preocupada.
- Acaso trata-se do conde? Ele est criando dificuldades para voc?
- No, no! Esquea-se dele! O conde no pode me atingir.
- No concordo, e  isto o que me assusta. Ele pode impedi-lo de vender
seus quadros, o que seria um desastre!
- J disse que ele no  importante, a no ser quando a assusta.
- com efeito, ele me assusta, mas poderei voltar para a Inglaterra, ao
passo que voc continuar em Paris, exposto  mesquinharia deste homem.
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- Voc est preocupada comigo! Como  que algum pode ser to
maravilhosa?
- Mas  claro que penso em voc. Afinal de contas, voc o expulsou de
casa para me proteger e  algo que jamais esquecerei. O conde  vingativo
e mau! Creio que percebi isso no momento em que o conheci.
- Receio que voc acabar por descobrir que muitos homens so maus.
- Por qu?
- Porque, meu amor, voc  muito bela, e quando os homens desejam a
beleza, eles perdem a cabea e muitas vezes se comportam como animais.
- Foi o que o conde fez ontem  noite, mas, conforme eu disse, posso
escapar, ao passo que voc, no.
- No se preocupe comigo, embora eu sinta profunda gratido por sua
considerao. Precisamos discutir, Simonetta, o que podemos fazer por
ns.
- E o que podemos fazer?
- Tentei no am-la - declarou Pierre, em um tom de voz que pareceu
estranho a Simonetta. - Quando a vi pela primeira vez, parada no Templo
do Amor, voc me encantou e senti que da por diante nunca mais
conseguiria evit-la.
- Voc est dizendo a verdade?
- Juro que sim.
- Quando voc se aproximou de mim senti que era diferente de todos os
homens a quem eu tinha conhecido at ento, e que poderia confiar em
voc.
- Pois , mas acontece que eu fracassei...
- Mas como? Voc me salvou do conde, protegeu-me e... De repente
Simonetta sentiu-se intimidada e baixou os olhos.
- Bem... no sei como colocar o que quero dizer... - declarou, muito
tmida.
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Pierre sentou-se na relva, ao lado dela, e segurou sua mo com fora.
- No se envergonhe, Simonetta. Prossiga.
A jovem sentiu toda a vibrao contida na mo de Pierre e estremeceu.
A excitao que ele lhe tinha provocado na noite anterior voltava a
surgir, apoderando-se de todo o seu corpo. Ela levantou os olhos e estava
como que hipnotizada.
- Voc me deu amor! - murmurou.
- Oh, meu anjo! Se eu lhe dei amor, voc me deu a perfeio do Divino, a
luz que sempre procurei e que julgava impossvel encontrar.
Pierre levou a mo de Simonetta aos lbios e a beijou.
- Sei que o que sentimos um pelo outro  o amor que os trovadores
celebravam em suas canes, um sentimento ao mesmo tempo espiritual e
perfeito - declarou a jovem.
-  exatamente isto o que voc . Por isso mesmo preciso ir embora.
Simonetta o encarou, como se no conseguisse entender o que ele dizia.
- Mas por qu? Voc no pode me deixar! Por favor... por favor... voc
no pode me deixar! E se o conde...
- Tudo farei para que o conde no volte a perturb-la, mas tambm no
posso mago-la, meu anjo. Preciso deix-la.
- Mas... no compreendo!
- Voc  uma criatura tentadora, mas  tambm uma pessoa cheia de ideais,
como eu tambm sou. No posso prejudic-la.
- Mas por que voc haveria de me prejudicar? Acaso est insinuando que
nosso amor  errado? Voc no e casado, a exemplo do conde, no  mesmo?
- No, no sou casado.
Simonetta calou-se. Subitamente percebeu que o que mais queria no mundo
era ser a esposa de Pierre.
Agora que tinha conscincia do que sentia, descobriu que o amor
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era uma verdadeira revelao. O que tinha encontrado em Pierre era o
sentimento que seu pai desejava que ela tivesse pelo homem que um dia se
tornaria seu marido.
Sabia tambm que, devido  sua posio social, jamais lhe permitiriam que
se casasse com um artista pobre.
Suas emoes a tinham transportado para um mundo de fantasias. Naquela
manh, ao despertar, no compreendera inteiramente a extenso da
felicidade ou do amor que Pierre tinha despertado nela. Assim, at sentir
o carinho das mos de Pierre, no tinha ligado esses sentimentos com o
casamento ou at mesmo com o prprio futuro.
Neste momento, pensava que jamais encontraria a felicidade a menos que
pudesse ficar ao lado de seu amado.
Sabia, tambm, que tais ideias se opunham  educao que tinha recebido,
a tudo o que sua vida tinha sido at ela vir para Ls Baux. No momento
no conseguia acostumar-se  estranheza de tudo aquilo.
Se ela permaneceu em silncio, o mesmo aconteceu com Pierre. Ele
contemplava o Templo do Amor, como se sentisse que o monumento ancestral
pudesse resolver seu problema. No entanto, tinha poucas esperanas de que
seus mais ntimos desejos se realizassem.
O silncio entre eles tornou-se penoso e Simonetta segurou com fora a
mo de Pierre, como se fosse uma bia lanada a um nufrago em alto-mar.
- Teremos de tomar uma deciso agora, Pierre? Eu estava to feliz ontem 
noite, quando no havia problemas, nem dificuldades...
- Mas existe um problema em relao a voc. Jurei a mim mesmo que no lhe
diria o que sinto a seu respeito e, sobretudo, que no tocaria em voc.
No entanto o que aconteceu perturbou-me demais e sinto vergonha da minha
falta de controle.
- Voc se envergonha... por ter me beijado?
Em seus olhos passou uma nuvem de tristeza, como se aquela ideia a
fizesse sofrer demais e Pierre apressou-se em dar uma explicao.
- No, claro que no. Se foi maravilhoso para voc, meu anjo, para mim o
foi muito mais.
- Foi to perfeito, to emocionante... Senti-me como se vossemos
91
para o cu e no fssemos mais seres humanos e sim um dos deuses de
Ls Baux no tempo dos romanos.
- Eu senti a mesma coisa.
- Tem certeza disso? No est dizendo essas coisas s para me deixar mais
feliz?
- Seria impossvel descrever para voc o que senti e isso  algo que no
devo fazer.
- Por que no? Gostaria que me dissesse.
- Estamos afundando cada vez mais em areias movedias, muito perigosas,
das quais preciso salv-la, ainda que isto signifique nossa separao.
Havia algo no tom com que ele se exprimia que fez Simonetta vibrar como
se estivesse ouvindo msica, uma msica que fazia parte da batida de seu
corao e da glria do sol.
- Oh, meu amor, voc  to meiga, to simples, to pura... Encontrei
algum que faz parte de um sonho e no entanto no h nada que eu possa
fazer a respeito!
Simonetta percebeu que o mesmo acontecia com ela. Como poderia procurar
seu pai e lhe contar que Pierre a amava e que ela retribua esse
sentimento? Sabia que, desde as primeiras palavras, seu pai voltaria a
ser um duque autoritrio e no mais um artista sensvel.
Precisaria igualmente admitir que tinha enganado no apenas seu pai, mas
tambm Pierre. Conseguia imaginar o quanto os dois ficariam zangados e
no saberia como se defender.
Procurou pensar numa soluo, mas estava completamente perturbada. Tudo
tinha acontecido com tamanha rapidez que lhe era impossvel refletir com
clareza.
De uma coisa tinha segurana: devia agarrar-se  felicidade.
- Por favor, Pierre... no podemos, s por hoje, sermos felizes e
procurarmos no fazer planos? Quero ficar com voc. Por favor... diga que
tambm quer ficar comigo.
- Voc sabe muito bem que  isso o que quero, mas estou tentando pensar
em voc.
92
Eu tambm estou pensando em mim. Quero e preciso v-lo por
um pouco mais.
- E isso tornar as coisas mais fceis, quando tivermos de nos dizer
adeus?
"Mas por que precisamos nos dizer adeus?", era a pergunta que ela queria
se fazer, mas no ousou.
- Claro que teremos de nos dizer adeus - disse a si mesma, e ser melhor
no contar para Pierre quem sou. Devo voltar com papai para a Inglaterra
e procurar esquec-lo.
Percebia, porm, que jamais haveria de se esquecer de Pierre. Amava-o. As
pessoas, com toda certeza, diriam que ela ainda era jovem e acabaria por
superar aquele primeiro amor, mas tinha plena certeza de que isso nunca
aconteceria.
Sabia que o amor que sentia por Pierre acontecia apenas uma vez na vida.
Tivesse ele ou no conscincia desse fato, pertenceria quele homem at o
dia de sua morte.
De repente, Simonetta sentiu que tudo aquilo era por demais assustador. A
nica coisa de que podia ter certeza era da presena de Pierre naquele
momento. Podia tocar nele agora, e o amanh talvez nunca chegasse...
- Por favor, Pierre... sejamos felizes!
Ele parou de contemplar o templo e voltou-se para ela.
- Bem sabe que estou pensando em voc.
- Pois ento faa o que lhe peo. Eu o amo!
Como se aquelas palavras, ditas com tanta meiguice, tivessem enfraquecido
sua deciso, Pierre passou os braos em torno dela e a fez deitar-se na
grama.
Seus lbios colaram-se aos dela e ele a beijou com uma paixo e uma
sensualidade bem diferentes do modo como a tinha beijado na vspera.
Agora ele era um deus, e no um homem, e Simonetta, uma mulher a quem ele
desejava. Para ela aquele era um momento de pura magia. Os beijos
ardentes de Pierre despertaram na jovem uma chama diferente de tudo o que
ela tinha experimentado ou imaginado
93
at ento. Era um momento de xtase, ao mesmo tempo estranho e excitante.
Pierre beijou-a at ficarem ambos perdidos de paixo e de desejo.
Ele, ento, ergueu a cabea e ficou a encar-la. Os olhos de Simonetta
brilhavam, seus lbios estavam afastados e sua respirao se acelerou.
Pierre percebeu que, pelo fato de t-la excitado, surgira nela uma nova
beleza: como uma rosa que desabrochou, Simonetta era agora uma mulher
apaixonada e seu rosto resplandecia na presena do amado.
Sentiu vontade de beij-la novamente, mas ela intimidou-se diante do
brilho estampado nos olhos dele e diante dos sentimentos que Pierre tinha
despertado nela. Levantou as mos num gesto de profesto. como se quisesse
mant-lo a distncia.
- No devo assust-la - comentou Pierre, afastando-se.
- Voc no me assustou - declarou Simonetta e sua voz parecia vir de
muito longe. - No entanto, quando me beija assim, me faz sentir muito...
esquisita...
- Esquisita?
- No consigo explicar.  maravilhoso e sinto arrepios percorrendo todo
meu corpo.
- Voc  muito jovem - disse Pierre, rindo. - No posso esquecer-me
disso.
- Est querendo dizer que, se eu fosse mais velha, no me sentiria assim?
- No  bem isso. Trata-se, porm, de algo que no devo explicar, da
mesma forma que no deveria faz-la experimentar o que est sentindo
agora.
- Por que no?  to maravilhoso... e tenho certeza de que faz parte do
amor que esse Templo irradia. Acaso acha errado eu me sentir assim?
- No, meu bem, no  errado.
Ele, at aquele momento, estava deitado na relva, ao lado dela, mas
levantou-se.
94
- Onde  que voc deveria ir hoje  tarde?
- J lhe disse que deveria fazer a sesta e em seguida ir ao encontro de
meu professor. No h pressa, porm.
- Quer que a beije mais uma vez?
No rosto de Simonetta surgiu uma expresso de incontida alegria.
- Voc sabe muito bem que sim!
- Oh, meu amor, as coisas esto ficando difceis para mim! declarou
Pierre.
Ele voltou a beij-la, mas desta vez com mais cuidados, como se ela fosse
uma flor que estava tocando, receoso de ferir suas frgeis ptalas.
Em seguida, deitou-se a seu lado, tomando-a nos braos e encostando seu
rosto no dela.
- Olhe a luz banhando os rochedos. Lembre-se de que  isto que estamos
procurando e que demos um ao outro,  nossa prpria maneira.
- Como  possvel algum transpor essa luz para uma tela? perguntou
Simonetta, comovida. - Sabemos apenas que ela est a, que a procuramos e
que a levamos dentro de ns.
Sentia que Pierre captava o que ela estava tentando dizer, a julgar pelo
modo como ele a abraava. Seria impossvel encontrar outro homem que
pensasse como ele. Quando o perdesse, perderia no apenas parte de si
mesma, mas mergulharia numa escurido na qual o sol no conseguiria
penetrar.
- Voc est pensando coisas negativas - observou Pierre sem que ela
esperasse.
- Como sabe?
- Creio que sei tudo a seu respeito: seus pensamentos, seus sentimentos,
as pequenas vibraes que emanam de voc e que consigo sentir, como se
fossem ondas de luz.
Simonetta estremeceu.
- O que est acontecendo?
- Quando toquei pela primeira vez em sua mo senti vibraes
95
que vinham de seus dedos. Percebi, ento, que voc era uma pessoa
muito especial e que nunca mais as coisas voltariam a ser as mesmas.
Simonetta sentia vontade de dizer a Pierre o quanto desejava permanecer
pra sempre a seu lado. Sabia que jamais ele poderia casar-se
com ela, pensamento que a deixava no auge da infelicidade, mas, por
outro lado, Pierre ainda no dissera que queria despos-la...
Aquilo a deixava intrigada, mas logo percebeu os motivos. Pelo fato de
ser um pintor, ele era pobre demais para poder sustentar uma mulher.
Amando-a, no queria oferecer a ela uma vida de privaes ou de
frustraes.
Seu pai tinha dito o quanto os impressionistas sofriam e ela percebia que
Pierre era nobre demais para pedir-lhe que compartilhasse essa vida
bomia e cheia de penrias.
Subitamente ocorreu um pensamento a Simoneta: se Pierre acre ditava que
ela era uma estudante de arte, por que ento achava que vida que ela
levava no momento seria diferente da vida que poderia oferecer-lhe?
No entanto era-lhe impossvel fazer perguntas, quando sabia que escondia
tambm muitas verdades. Se acaso Pierre tinha segredos, o mesmo acontecia
com ela.
Permanecer em seus braos era a coisa mais maravilhosa que ela podia
imaginar. L onde se encontravam no conseguiam ver nada, a no ser os
rochedos muito alvos banhados pela luz do sol, e o cu muito azul, acima
de suas cabeas.
Simonetta sentiu que aquele mundo lhes pertencia. Era um universo de
liberdade, que nada poderia prejudicar, e onde existiam unicamente Pierre
e o amor.
- Agora voc est pensando em mim - ele disse com ternura.
- Como  possvel pensar em algo mais, quando me sinto to feliz? Ao
mesmo tempo, fico assustada pelo fato de voc conseguir ler meus
pensamentos.
- No se trata tanto de seus pensamentos, quanto de seus sentimentos,
Simonetta. Sinto que voc vibra em relao a mim, e quando
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nossos sentimentos se unirem, ento formaremos uma s pessoa. Oh, meu
anjo, no posso deix-la partir...
Era uma exclamao quase de desespero e Simonetta abraou pierre com toda
fora.
- Eu o amo... eu o amo! O que quer que acontea, sempre terei certeza de
que voc me deu algo to precioso, to sagrado, que nunca deixarei de
agradecer a Deus de joelhos pelo fato de t-lo conhecido!
Ele no disse nada e, diante de seu silncio, Simonetta ergueu a cabea a
fim de olh-lo.
Pierre estava com o rosto voltado para o cu e de olhos fechados. Ainda
assim, ela conseguiu notar uma expresso de dor, que lhe dava uma
aparncia diferente. No entendia por que ele tinha ficado daquele jeito
ou o que o perturbava.
Sabia apenas que, pelo fato de am-lo, seria capaz de dar a prpria vida
a fim de impedir que ele sofresse.
97

CAPITULO VI

Pierre no dizia nada e no parecia prestar ateno ao que ela dissera.
Simonetta ficou assustada:
- Pierre! Pierre! - chamou com insistncia.
Ele abriu os olhos e ficou a contempl-la durante alguns instantes.
Sentou-se, ento, e abriu os braos, acolhendo-a e estreitando-a com
carinho.
- Oua-me, meu amor - disse finalmente, olhando em direo ao Templo do
Amor. - Agora vou dizer-lhe adeus e em seguida partirei de Ls Baux.
Simonetta, desesperada, protestou.
- Partir? Mas por qu? O que foi que eu fiz?
- Voc no fez nada, mas no podemos prosseguir assim.
- No posso admitir que voc parta.
- No posso deixar de faz-lo e um dia voc entender.
- Quero entender agora. Como podemos desperdiar esse tempo precioso de
que dispomos?
- Existem, na vida de uma pessoa, momentos que so perfeitos, belos e,
como voc disse, preciosos. Um momento de que jamais esquecerei
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foi quando a vi pela primeira vez, parada na porta do Templo. Julguei
ento que voc no era um ser humano, mas uma apario do passado.
Quanto a Simonetta, ela jamais se esqueceria do momento em que pierre
aproximara-se dela, e das vibraes que sentira, quando suas mos se
tocaram. No disse nada, porm, e Pierre prosseguiu.
- Um outro momento inesquecvel foi quando nos sentamos  luz do luar,
perto do castelo, e julguei que ns dois tnhamos recuado para o passado.
- Eu tambm pensei o mesmo. Imaginei que conseguia ver o castelo como ele
era no passado e ouvia os trovadores cantando suas cantigas de amor.
- Mais tarde, embora tentasse no tocar em voc, beijei-a e julguei que
nenhum homem podia ser mais feliz, pois eu tinha encontrado o cu na
terra.
- Foi tudo to perfeito... - murmurou Simonetta, encostando o rosto no de
Pierre. - Como poderei permitir que outro homem me beije, se a partir
daquele momento passei a pertencer a voc?
- Voc no deve dizer estas coisas - observou Pierre, um tanto tenso.
- Por que no, se elas so verdadeiras?
- Porque voc no pode dar-me seu corao. Procurarei rezar, para que
voc encontre a felicidade ao lado de algum.
- Como  que voc pode dizer uma coisa destas, quando s quero ser feliz
a seu lado?
- A est uma pergunta a que no posso responder.  por essa razo que
preciso partir.
Simonetta quis protestar, mas sabia que no havia nada a ser dito.
Se Pierre precisava partir, o mesmo acontecia com ela.
Ocorreu-lhe, ento, sugerir que poderia partir com ele. No precisava
revelar-lhe quem era. Ele poderia pensar, at o fim da vida, que ela era
simplesmente uma estudante de arte, cuja vida no tinha a menor
importncia para ningum.
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Era, porm, bastante inteligente para perceber que aquela ideia no
passava de um sonho. Se lady Simonetta Terrington-Trench desaparecesse,
o acontecimento provocaria uma grande sensao e a polcia alertada por
seu pai, em breve acabaria por encontr-la.
Embora no tendo muita certeza, achava que Pierre, em tais
circunstncias, poderia ser acusado de ofensa  lei, pelo fato de rapt-
la.
No posso mago-lo, pensou. Eu o amo e ele poder sofrer por minha causa
se o conde levar adiante sua ameaa e impedi-lo de vender seus quadros.
Subitamente percebeu o quanto era censurvel de sua parte insistir com
Pierre para que ele ficasse a seu lado, quando ele j insistira no fato
de que precisava partir.
Ainda no conseguia entender muito bem por que ele no poderia continuar
a v-la, pelo menos at que ela e seu pai permanecessem em Ls Baux, mas
sabia que Pierre pensava nela e no nele. Seu amado era muito mais
sensato do que ela.
- O que aconteceu entre ns foi um sonho maravilhoso - disse Pierre, como
se percebesse a mudana na atitude de Simonetta. -  o momento em que
voamos nas asas da fantasia, em direo a um mundo mgico. L encontramos
o amor que todos os homens e mulheres procuram, mas que com tanta
frequncia escapa deles.
Havia um tom de tristeza em sua voz que deixou Simonetta com vontade de
chorar.
- Quando ficarmos velhos recordaremos este momento to perfeito de nossas
vidas - prosseguiu Pierre. - Pensaremos na luz banhando os rochedos e
concluiremos que fomos abenoados, pois no somente tivemos permisso de
ver esta bela paisagem, como de senti-la e guard-la para sempre em
nossos coraes.
- Eu o amo!
- E eu a amo, minha adorada.
Pierre olhou para ela e Simonetta julgou que ele a beijaria. Em vez
disso, obrigou-a a levantar-se e passou o brao em torno de sua cintura.
Percorreram lentamente os campos, em direo  estrada.
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Somente quando haviam andado alguns metros Pierre parou  sombra das
rvores e disse com suavidade:
- Olhe para mim, Simonetta. ela obedeceu, apreensiva, e seus lbios tremiam
um pouco. Voc  to linda, to absurdamente linda! No posso suportar o que o futuro lhe reserva.
 Simonetta no conseguiu dizer nada e aquelas palavras fizeram-na
tremer.
 Devido  forte emoo que sentia nas palavras de Pierre, seu corao
bateu com mais rapidez, como se ele a estivesse beijando.
- Prometa-me que, o que quer que acontea, voc se lembrar do amor que
encontramos - disse Pierre. - Nunca faa pouco desta recordao, nunca
aceite quem me substitua.
- Sim... prometo - ela disse, gaguejando.
Foi ento que, sem despregar os olhos, ele a tomou nos braos, puxando-a
para si.
Pierre no lhe beijou a boca, conforme ela esperava, mas roou os lbios
em sua testa, nos olhos, no rosto to macio e em seu queixo pequeno e
gracioso.
Finalmente beijou-a nos lbios, um beijo que pareceu a Simonetta
completamente diferente de todos os que ele tinha dado at ento.
Era como se ele no fosse um homem e ela no fosse uma mulher. Ele no a
beijava com o corpo, mas com o esprito e a alma.
- Parta depressa, meu amor, enquanto ainda consigo deix-la em paz - ele
disse com voz rouca, desprendendo-se dela. - Que Deus a acompanhe, agora
e por toda a eternidade.
Pierre deu-lhe as costas e caminhou em direo a seu cavalete. Simonetta,
sentindo que havia algo de definitivo e sagrado naquela despedida, no
teve outro recurso, a no ser obedecer.
Sentia-se tonta com as emoes que tinha experimentado e com o modo como
Pierre havia forado sua vontade. Passou pela cerca de lavanda, pensando
que fazia aquilo pela ltima vez.
Caminhou em direo  casa, sentindo-se gelada por dentro. Tinha
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a impresso que atravessava um nevoeiro espesso, apesar de o Sol estar
alto no cu.
Uma escurido assustadora parecia sair de seu corao e apoderar- se de
todo seu ser, at que a luz deixou de existir.
Mais tarde Simonetta no conseguiu recordar com exatido o que tinha
acontecido.
Lembrava-se vagamente de que estava deitada na cama, sofrendo uma
angstia que era ao mesmo tempo fsica e mental. Parecia-lhe que uma
parte de seu ser morria lentamente.
Disse, porm, a si mesma que a vida precisava continuar. Decidiu mudar de
roupa e ir ao encontro de seu pai.
Durante muito tempo ficou a contemplar seu reflexo no espelho do quarto.
Sentia que tinha envelhecido demais e que Pierre, ao deix-la, tinha
levado sua beleza com ele. Agora seu rosto devia estar diferente,
desprovido de toda manifestao de vida. S conseguiu ouvir as palavras
de Pierre:
- Voc  to incrivelmente bela!
Simonetta achava muito estranho que no sentisse vontade de cho rar.
Talvez isso acabasse por acontecer, mas, no momento, seus olhos estavam
secos.
No lugar do corao sentia um oco no peito, que a impedia de sentir o que
quer que fosse, a no ser uma grande dor.
Finalmente levantou-se da penteadeira, pegou o chapu e foi at a sala de
estar, a fim de buscar a tela, a caixa de tintas e a palheta. Aquilo
agora lhe parecia um tremendo esforo, quando antes era pura alegria.
Para grande surpresa viu seu pai atravessando o jardim.
- O que aconteceu, papai? Por que voltou to cedo?
- No  to cedo assim, minha filha. Estava de volta para casa quando
encontrei na estrada o carteiro, que trazia um telegrama para mim.
- Um telegrama, papai?
-  muito desagradvel, mas acho que temos de voltar para a Inglaterra
amanh de manh.
102
- Mas por qu? O que aconteceu?
- O telegrama  da Cmara dos Lordes - informou o duque, passando por
Simonetta e entrando em casa.
- O que aconteceu?
-  muito inoportuno que o fato tenha se dado exatamente neste momento -
disse o duque, zangado - mas antes de partir prometi ao Primeiro Ministro
que eu apresentaria seu novo projeto sobre a educao na Cmara dos
Lordes, se ele o passasse na Cmara dos Comuns.
Simonetta no disse nada, e o duque no disfarava o quanto estava
aborrecido.
- Tinha certeza de que o projeto no passaria na Cmara dos Comuns em
primeira discusso, mas o fato aconteceu e preciso voltar. No me resta
outra soluo.
-  claro que no, papai.
Simonetta tinha a impresso de que sua voz vinha de muito longe e a nica
coisa que lhe ocorria era que, se Pierre estava para partir, o mesmo
acontecia com ela. Precisava comunicar o fato a seu amado.
Seu pai continuou a falar com irritao e ela nem prestava ateno.
Pensava em Pierre e chegou  concluso que nada mais tinham a se dizer.
Na realidade, Pierre ficaria ainda mais perturbado do que j estava, se
tivesse de sofrer mais uma vez toda aquela sensao de angstia provocada
pela despedida entre eles.
Ele jamais ficar sabendo o que aconteceu comigo, pensou Simonetta. "Mas
eu tambm no saberei dele. "
Tentaria localizar algum quadro dele em galerias de arte, bem como seu
retrato, em jornais e revistas, mas a sensao de perda era irremedivel
como a morte.
Obedecendo s ordens do duque, Simonetta foi para seu quarto e comeou a
fazer as malas. Ainda no tinha acabado quando seu pai chamou-a,
anunciando que o jantar estava servido.
Simonetta estava de tal modo entregue a seus pensamentos e  infelicidade
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que no percebeu que o sol tinha se posto, apesar de ainda haver
um claro no alto dos rochedos.
Ao contemplar aquela incrvel paisagem, sentiu uma dor funda, que tinha
o mesmo efeito de um punhal penetrando em seu corao.
Desceu rapidamente a escada, decidida a no voltar a olhar para a luz que
lhe trazia recordaes de Pierre. Elas eram to fortes que a impeliam a
 gritar o nome dele.
Marie tinha preparado um de seus deliciosos jantares, mas, no estado de
nimo em que se encontrava, Simonetta comeu sem o menor entusiasmo.
Conversava com seu pai e tinha a impresso de que era outra pessoa que
lhe respondia. No se sentia mais em seu corpo, mas muito longe, 
procura de Pierre, a fim de lhe suplicar de joelhos que no a
abandonasse.
- Nossa viagem foi muito agradvel, Simonetta, e apreciei demais sua
companhia - observou o duque, quando o jantar chegou ao fim.
- Obrigada, papai.
- Precisvamos repetir esta aventura mas, agora que voc vai ser
apresentada  sociedade, no ter tempo para seu velho pai.
- Voc bem sabe que sempre apreciarei sua companhia, papai. Devido ao
amor que sentia por Pierre, Simonetta no suportava
imaginar que outros homens lhe dirigiriam a palavra, danariam com ela e
lhe fariam elogios. Apesar de ainda no ter conhecido seus possveis
pretendentes, j os odiava, pois eles no podiam comparar-se ao homem a
quem amava e a quem tinha dado o corao.
- Ns nos divertimos muito por aqui - prosseguiu o duque - e, quando
voltarmos para a Inglaterra, precisamos planejar com todo cuidado sua
apresentao  Corte e o baile que pretendo dar em Londres. Creio que
estou me comportando como um pai orgulhoso disse o duque, sorrindo - mas
acho prudente anunciar seu baile. Nessa temporada haver numerosos
bailes, para os quais voc ser convidada, e ter de retribuir os
convites que, sem dvida, receber!
- Sim, acho sua atitude muito sensata, papai.
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- Meu bem, estou decidido a v-la fazer um grande sucesso e tenho
certeza de que voc ser a rainha de qualquer reunio social a que
comparecer! Para dizer a verdade, estou louco de vontade de voltar aos
dias de minha juventude. Enquanto voc estiver danando com todos os bons
partidos, eu procurarei a companhia das mais belas mulheres presentes!
O duque falava como se aquela ideia o divertisse.
Simonetta ficou a imaginar o que ele diria se ela lhe comunicasse que no
sentia a menor vontade de comparecer a bailes. Tudo o que desejava era
permanecer no castelo e pintar, pois assim se sentiria mais prxima de
Pierre.
- Creio que papai jamais entenderia - disse a si mesma.
Como seu pai reagiria quando deixasse claro que, por mais vantajosas que
fossem as propostas de casamento que recebesse, estava decidida a recusar
todas elas?
- Como  possvel eu desposar outro homem, quando perteno a Pierre?
Seria um verdadeiro sacrilgio permitir que outra criatura ocupasse o
lugar dele na minha vida.
Simonetta j conseguia prever todas as dificuldades e obstculos que
teria de enfrentar, sobretudo os comentrios de seu pai e de suas tias.
Eles jamais sabero ou entendero o que aconteceu comigo, pensou,
desesperada.
Se acaso revelasse o que tinha acontecido, seu pai se censuraria por t-
la trazido para o estrangeiro, muito embora no pudesse julg-lo culpado
por ter mudado completamente o seu modo de encarar a vida.
Creio que, de certo modo, cresci, ela refletiu. Quando vim para Ls Baux
eu era uma criana e agora me tornei uma mulher que sofre, como sofreram
todas as mulheres desde que o mundo  mundo.
Pela primeira vez ficou a imaginar se as rainhas e princesas das Cortes
do Amor tinham se apaixonado pelos trovadores que cantavam para elas e
depositavam os coraes a seus ps.
O amor que elas sentiam era puro e espiritual e deve ter havido momentos
em suas vidas em que se sentiam obrigadas a mandar embora
105
os homens pelos quais comeavam a se apaixonar. Ningum sabe se eles eram
suficientemente nobres para deix-las...
At, aquele momento as Cortes do Amor tinham se assemelhado para
Simonetta a apenas uma fantasia e os que dela faziam parte no eram
criaturas de carne e sangue, que podiam ser felizes e, ao mesmo tempo,
tremendamente infelizes.
- Voc est muito calada, meu bem - disse o duque.
- Pensava na temporada que passamos aqui. Para mim ela foi muito
reveladora, sob vrios aspectos.
- O que voc quer dizer com isso?
- Ls Baux inspirou em mim sentimentos muito profundos. Espero me tornar
uma artista melhor, pelo simples fato de ter vindo at aqui
- disse Simonetta, escolhendo cuidadosamente as palavras.
- Era exatamente o que eu queria, minha filha, mas acho que teremos pouco
tempo para pintar, uma vez que nos instalarmos em Londres.
Simonetta no disse nada e quando Marie veio tirar a mesa ela foi sentar-
se em uma das poltronas. Receava aproximar-se da janela e ver a luz que
iluminava os rochedos.
O duque comeou a pr suas coisas em ordem. Empilhou as telas e dobrou o
cavalete, a fim de poder guard-lo na mala.
Simonetta contemplava-o, e considerou a iniciativa de seu pai, levando em
conta que, em casa, ele dispunha de numerosos criados para dar conta de
todas aquelas tarefas.
O duque levou todo o material de pintura para seu quarto e, quando voltou
para a sala, manifestou-se:
- Agora vou at a aldeia encomendar uma carruagem para vir nos buscar
amanh s sete. Precisamos partir bem cedo, se quisermos pegar o trem das
onze, que vem de Arles. Chegaremos a Paris  noite.
- Quanto a mim, estarei pronta, papai.
- Devo dizer que, para uma mulher, voc  muito pontual.  uma virtude
muito rara em seu sexo.
- Papai, sei o quanto voc se irrita quando algum se atrasa!
106
No devo demorar. Aps encomendar a carruagem, irei  taverna despedir-me
de meus amigos.
- Sim, papai.
- Pois ento v se deitar e durma bem. J preveni Marie para nos acordar
s seis horas.
O duque no esperou a resposta de sua filha e retirou-se, fechando a
porta da rua.
Simonetta no se mexeu. Permaneceu na poltrona, embora soubesse que
precisava terminar de arrumar as malas. Sentia-se desanimada e vazia,
como se tudo o que acontecera aquela tarde tivesse sugado suas foras,
deixando-a apenas uma sombra de si mesma.
- Precisa de mais alguma coisa, mademoiselle? - perguntou Marie, que
tinha acabado de arrumar a cozinha.
- No, Marie, obrigada. Gostamos imensamente da deliciosa comida que voc
preparou, enquanto estivemos aqui.
- Foi um prazer cozinhar para pessoas que apreciam o que sirvo e que
esto dispostas a pagar por isso.
Simonetta sorriu, sem dizer nada, e Marie prosseguiu.
- Alguns artistas procedem como verdadeiros animais e devoram tudo que se
pe diante deles. Outros, que vivem nas nuvens, no conseguem distinguir
uma ostra de uma batata!
- Creio que  verdade, Marie - disse Simonetta, rindo. - Creio que  a
isso que chamam de "temperamento artstico".
- Pois  algo que jamais pretendo ter! Espero ter o prazer de rever a
senhorita e o professor.
- Ns tambm esperamos poder voltar um dia.
- Dizem que quem visita Ls Baux uma vez, sempre regressa...
Simonetta achou que infelizmente aquilo jamais lhe aconteceria. Sentia-se
como que enfeitiada, no propriamente por Ls Baux, mas pelo fato de ali
ter conhecido Pierre.
No havia menor dvida de que o mundo encantado no qual ele a tinha feito
penetrar era algo que jamais esqueceria.
107
- No duvido, Marie - disse em voz alta, mas sabia que, se algum dia
voltasse a Ls Baux, Pierre no se encontraria presente.
Ele jamais se arriscaria a voltar e, embora pudesse ser encontrado
pintando em algum lugar da Frana, Simonetta jamais saberia onde ele se
encontrava. Os quadros de Pierre nunca mais registrariam a presena dela
em suas telas vazias, sem vida.
- Boa noite, mademoiselle! - disse Marie, retirando-se.
- Boa noite, Marie.
Simonetta ouviu o barulho da porta da cozinha, que se fechava, e percebeu
que a criada atravessava o pequeno jardim e se afastava da casa.
Assim que se viu a ss, encostou a cabea no espaldar do sof, mal
conseguindo conter as lgrimas.
O simples fato de dirigir seus pensamentos para Pierre tornava ainda mais
dolorosa a angstia de perd-lo. Rememorou o primeiro encontro que
tiveram, as coisas que se disseram, o momento em que teve plena
conscincia dele como homem, quando ento desejou que Pierre a beijasse.
- Nunca, em toda minha vida, quis tanto uma coisa quanto ser beijada por
ele naquele instante - murmurou a jovem.
A magia daquele beijo, finalmente obtido, superou tudo o que ela
esperava. Sentiu-se transportada para o cu e tudo que tinha imaginado ou
sonhado a respeito do amor era apenas uma plida imitao da fantstica
realidade.
Agora entendia por que o amor levava os homens a guerrear pelas mulheres
a quem amavam, e levava as mulheres a serem condenadas sem gritar ou
protestar, juntamente com seus amantes.
Entendia de onde vinha a inspirao, que levava os msicos a compor e os
escritores a fazer poemas para aquelas a quem amavam, e que tinham
provocado a exaltao de outras mulheres em todos os tempos.
Amor! Amor! Amor!
Apesar de provocar angstia e xtase, Simonetta agora sabia que
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uma pessoa ainda no tinha vivido, a menos que sentisse o amor como ela
sentia por Pierre. Devia ter ficado muito tempo pensando nele, pois
quando abriu os
olhos percebeu que a sala estava mergulhada na escurido e que a noite
chegara.
L fora as estrelas cintilavam no cu, e o luar esparramava seus raios
sobre os rochedos, mas Simonetta sabia que no conseguiria olhar para
todo aquele esplendor, pois j no tinha Pierre a seu lado.
Levantou-se lentamente, decidindo subir ao quarto e acabar de arrumar as
malas. Nesse instante notou que a janela da sala estava aberta e achou
melhor fech-la.
Atravessou a sala com os braos estendidos, para no tropear nos
mveis, e refletiu que devia acender as velas em seu quarto.
Assim que chegou perto da janela ouviu o barulho de rodas que
deslizavam pela estrada. Pensou imediatamente que era a carruagem
encomendada por seu pai e que os transportaria a Arles. Logo percebeu
o quanto aquilo era absurdo, pois a carruagem s viria pela manh.
Debruou-se na janela e percebeu, para sua grande surpresa, que a
carruagem parou diante do porto do jardim.
 Era puxada por dois cavalos e, ao lado do cocheiro, havia outro
homem, que saltou, indo abrir a porta.
Nesse instante surgiu outro homem por entre os arbustos, no fundo do
jardim. Sem entender o que estava acontecendo, Simonetta notou
que o vulto se aproximou da carruagem.
Era-lhe impossvel perceber os rostos daqueles homens, e embora o sujeito
que sara do jardim falasse baixinho, ainda assim a jovem conseguiu
entender o que ele dizia.
- O homem no est, mas a garota encontra-se na casa, senhor conde.
Por um momento o significado daquelas palavras no atingiu Simonetta mas,
ao compreender do que se tratava, seu corao quase parou.
109
Tinha cado numa armadilha!
Tomada de pnico, percebeu que o homem que estava na carruagem era o
conde e que os sujeitos que lhe falavam eram seus criados. Durante alguns
momentos foi-lhe impossvel respirar ou at mesmo se mexer.
Assim que o pleno significado do que tinha ouvido se tornou claro o pavor
apoderou-se dela. O conde tinha dito que, quando Simonet partisse de Ls
Baux, ele a levaria em sua companhia para Paris. Era o que ele tinha
vindo fazer, com ou sem seu consentimento.
Durante alguns segundos Simonetta teve vontade de gritar, horrorizada,
mas o instinto de sobrevivncia dizia-lhe que tinha de tentar escapar de
qualquer maneira.
Nesse momento ouviu a voz de seu perseguidor, dando instrues em voz
baixa, mas que ela conseguiu entender perfeitamente:
- Entre pela porta do fundo, Jean, e voc, Gustav, pela porta da frente.
S ento Simonetta percebeu que dispunha apenas de um segun do para se
salvar. Correu em silncio em direo  escada, mas logo percebeu que
aquela no era a melhor soluo.
- Oh, meu Deus, ajude-me! - rezou.
Como se uma voz a dirigisse, ocorreu-lhe que havia somente uma atitude a
tomar. Entrou no quarto de seu pai e foi para o pequeno banheiro onde
tinha se banhado. Havia ali uma pequena janela, que dava para os fundos
da casa, e Simonetta no custou para abri-la, pulando para fora.
Ainda pde ouvir os passos de um dos criados do conde, que subia a
escada, em direo a seu quarto.
A salvo, correu velozmente por entre os arbustos, que da a pouco deram
lugar a um pequeno bosque de oliveiras e ciprestes. Nesse ponto,
Simonetta percebeu que no conseguiria movimentar-se com rapidez, pois o
terreno era acidentado e os ramos das rvores no deixavam passar o luar.
Ainda assim ela procurava apressar-se o quanto podia, receosa de que, a
qualquer momento, percebesse os criados do conde varando o
110
bosque,  sua procura. Era apenas uma questo de tempo eles perceberem
que ela tinha fugido pela janela do banheiro.
Seu corao batia loucamente, seus lbios estavam secos e ela respirava
com dificuldade.
Se o conde me levar com ele, passar muito tempo antes de papai descobrir
o que me aconteceu, refletiu.
Agora se arrependia por no lhe ter contado como o conde tinha se
comportado com ela e o convite que lhe fizera.
O duque no apreciara os elogios, nem os olhares que o conde dirigira a
sua filha. Mas no podia imaginar que ele estava to decidido a possuir
Simonetta, e que no hesitaria em apoderar-se at mesmo pela fora, caso
fosse necessrio.
"Poderiam se passar semanas ou meses antes de eu ser salva e at l...
seria tarde demais!", constatou a jovem.
No entendia inteiramente o que queria dizer com "tarde demais". Sabia
apenas que o conde tocaria nela e a beijaria. Ele era um homem forte e,
diante de sua fragilidade, no havia nada que ela pudesse fazer.
Aquela ideia era to horrvel e degradante que julgou que deveria morrer,
caso o conde pusesse as mos nela. No tinha, porm, a menor noo de
como se mataria.
Agora chegava ao fim do bosque e sabia que logo estaria no campo, onde
ela e Pierre tinham se encontrado ainda aquela tarde.
Ocorreu-lhe que, talvez devido a um verdadeiro milagre, ele ainda
estivesse l. Desesperada, chegou  concluso de que no havia a menor
chance de que aquilo pudesse acontecer. Pierre no haveria de querer
contemplar o lugar, pois ele lhe recordaria a felicidade de que tinha
gozado.
Precisava encontrar de qualquer jeito seu pai ou Pierre, caso contrrio
seria capturada pelo conde e estaria perdida para sempre.
- O que posso fazer? - perguntou, avanando por entre as rvores. - Para
onde posso ir?
Simonetta sentia que os espinhos que machucavam seus tornozelos eram
aliados do conde e a detinham, aprisionando-a.
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Se eu tivesse ficado na Inglaterra, em vez de vir at aqui com papai,
agora estaria a salvo, pensou.
A calma serenidade do castelo parecia-lhe agora algo de inatingvel que
nunca mais voltaria a ver.
Finalmente, chegou ao lugar onde Pierre tinha colocado seu cava lete e
nesse exato momento julgou ouvir um homem gritar a distncia. Sentiu
tamanho pavor que tambm teve vontade de gritar. Ento, lanando mo de
toda a energia de que dispunha, correu como uma louca em direo ao
Templo do Amor.
Teve uma sbita esperana de que talvez os criados do conde no a
procurassem l. Se se deitasse no cho, em meio  escurido, quem sabe
eles nem a veriam?
Aquele ltimo esforo exigiu tudo dela e, ao chegar ao templo, mal
conseguia respirar. Aquele lhe parecia o nico lugar seguro, e, no
entanto, sentia um medo terrvel de ser descoberta, antes de conseguir
ssconder-se.
Assim que entrou no Templo, percebeu que ele no estava vazio. Deu um
grito, aterrorizada.
Subitamente, antes que ela conseguisse entender o que estava acontecendo,
Pierre tomou-a em seus braos, causando-lhe um alvio indescritvel.
- Meu amor! Meu anjo! O que aconteceu?
Simonetta no teve condies de responder. Seu corpo amoleceu e ela quase
chegou a desmaiar, a tal ponto tudo aquilo tinha sido to penoso.
Pierre carregou-a para dentro do Templo e sentaram-se num banco de pedra.
- Mas o que aconteceu? - indagou Pierre, sem disfarar o quanto estava
ansioso. - Voc tem que me contar!
- O conde... o conde... foi at em casa e queria levar-me com ele!
- Mon Dieu! Mas isto  intolervel! - exclamou Pierre, indignado. Ele fez
meno de se levantar, mas Simonetta sentia mais medo por
ele do que por ela mesma.
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- No! Ele tem dois homens em sua companhia! Disse que pretendia levar-me
para Paris e no recuar!
quela altura os criados do conde j deviam estar  sua procura em pleno
bosque e em breve os localizariam.
- Eles esto me seguindo! Logo nos encontraro e o agrediro!
- No creio que eles consigam nos encontrar aqui e, caso saiam do bosque,
conseguiremos v-los. Eu poderia lev-la para a aldeia, mas acho que no
vale a pena.
Pierre falava como se estivesse pensando em voz alta. Simonetta, que
ainda respirava com dificuldade, agarrou-se a ele, procurando acreditar
que j no precisava fugir mais, pois agora contava com seu amado para
proteg-la.
- E se eles aparecerem?
- Acho que posso dar conta dos criados, mas, se o conde tambm vier,
estou disposto a brigar com ele.
- Oh, no! Voc no deve fazer semelhante coisa! Isso haver de lhe
trazer muitos problemas. Receio que o conde o impea de vender seus
quadros.
- Voc ainda est pensando em mim?
- E como poderia pensar em outra pessoa?
- No consigo entender como isto foi acontecer - disse Pierre, segurando-
a com mais fora.
- Meu... professor foi at a aldeia encomendar uma carruagem, pois
partimos amanh.
- Amanh? Mas voc no tinha a menor inteno de partir, quando
conversamos hoje  tarde.
- No, mas meu professor precisou voltar subitamente  Inglaterra.
Pierre certamente ficaria muito surpreendido se ela explicasse os motivos
que chamavam o duque de volta a seu pas, mas, pelo visto, ele no era
curioso.
- Isso resolve um problema. Quando voc estiver de volta  Inglaterra,
ficar livre do conde.
113
- Sim...  verdade.
Pierre no tinha a menor ideia de que o conde sentiria muita difi culdade
em acreditar que aquela "estudante de arte", a quem esperava raptar sem o
menor esforo, era uma jovem da alta sociedade e ainda por cima, filha
de um duque.
- Se ele se aproximar de voc,  preciso procurar imediatamente a
polcia. Est me entendendo, Simonetta? Quem sabe tem algum parente que
possa fazer isto por voc?
- Sim, tenho parentes na Inglaterra.
- Gostaria de poder conversar com eles e dizer que devem vigi-la com o
maior cuidado. Nunca mais voc dever vir at a Frana com um homem de
idade, que no consegue proteg-la como  necessrio!
- O que voc est dizendo  injusto! - protestou Simonetta, que achava
que devia defender seu pai.
- Talvez seja, mesmo, mas voc  bela demais, meu anjo. Sempre haver
homens que desejaro persegui-la... Oh, meu Deus! Como posso permitir que
lhe acontea semelhante coisa? Como posso deix-la e ser torturado dia e
noite, pensando que homens como o conde a ameaam, deixando-a to
assustada quanto voc se encontra agora?
- Eu teria ficado morta de medo se voc no estivesse aqui, Pierre.
Simonetta ergueu a cabea e olhou em direo ao bosque. Agora o luar
lanava seu manto de prata sobre tudo ao redor deles. A paisagem era
belssima e, ao mesmo tempo, sinistra, devido  iminncia do perigo.
Simonetta agarrou-se ainda mais a Pierre e todo seu frgil corpo tremia.
- No adianta, meu anjo! - ele disse com a voz tomada pela emoo. - No
posso deix-la e a nica maneira de proteg-la  casando com voc!
A jovem no esperava ouvir tais palavras. Encarou Pierre com grande
surpresa e, por alguns instantes, esqueceu a ameaa que pairava sobre
eles.
Muito embora as palavras ditas por Pierre fossem as que ela tanto
114
queria ouvir, ainda assim teria de dizer no. Antes que pudesse balbuciar
qualquer coisa ele prosseguiu.
- As coisas no sero nada fceis para voc. Estou lhe dizendo a verdade,
ao declarar que ser muito penoso para voc ser minha esposa e que talvez
se sentir-infeliz. Juro que farei tudo o que estiver a meu alcance a fim
de impedir que voc se magoe, apesar de saber que muitas vezes ser-me-
impossvel impedir que isso acontea.
- No entendo o que voc est querendo dizer. Por que haverei de ser
infeliz?
- Voc  inglesa e as famlias francesas, como deve saber, so muito
diferentes das inglesas. A minha, por exemplo, ficar furiosa pelo fato
de eu despos-la. Como ser tarde demais para impedi-la de se tornar
minha esposa, faro tudo o que estiver ao alcance deles a fim de obrig-
la a entender que no a querem, que a rejeitam e que desaprovam o tipo
de vida que voc levou antes de nos conhecermos.
A resposta de Pierre no era absolutamente o que Simonetta esperava.
Julgava que ele iria dizer que lhe oferecia uma vida de pobreza e de
dificuldades sem fim, j que iria ganhar sua subsistncia atravs da
pintura.
Encarou-o tentando compreender o que ele tinha acabado de dizer. Ao mesmo
tempo sentia-se comovida pelo fato de Pierre quer-la para sua esposa.
Apesar de nunca ter tocado no assunto, agora ele a pedia em casamento.
- Meu amor, embora voc receasse que o conde pudesse impedirme de vender
meus quadros, sua ansiedade era desnecessria - declarou Pierre.
- Por qu?
- Porque no sou artista, a no ser nos momentos de folga.
- No  um artista? Mas pensei que...
- Amo a pintura e quero ser um bom impressionista, embora muitas vezes
receie que isto seja uma ambio impossvel.
- Mas com toda certeza voc se tornar um bom artista, no  mesmo?
115
- o que eu quero que voc pense e sua opinio  a nica que conta. Na
verdade, meu anjo, tudo seria muito mais fcil se voc estivesse de fato
para se casar com um impressionista. Tudo o que teramos a fazer seria
lutar para viver e vender os quadros inspirados por voc e por Claude
Monet, o artista a quem ns dois tanto admiramos.
- Sim, e tambm Sisley... - murmurou Simonetta.
Naquele momento ela pensava no belo quadro daquele pintor que tinha
admirado no castelo do conde. S o fato de pensar naquele homem, trouxe
de volta todos os seus receios e Simonetta colocou-se numa posio em que
podia observar tudo o que se passava a seu redor.
- Esquea-se do conde - disse Perre. - A esta altura ele j deve ter
chegado  concluso de que a perdeu e se retirar para sempre de nossas
vidas.
- Voc acredita realmente que ele far isso?
- Creio que por mais presunoso que ele seja, no se arriscar a ir at a
aldeia, onde imagina que voc tenha se refugiado.
- Espero que voc tenha razo.
- Agora falemos a respeito de ns dois. J tomei uma deciso, o que
deveria ter feito antes. Ns nos casaremos, mas voc achar minha famlia
um tanto difcil. Ns, porm, os enfrentaremos. Tenho certeza que com o
tempo, graas  sua beleza, a seus encantos e  sua inteligncia, voc
acabar por conquist-los.
- No entendo por que eles sero contra mim.
- Isso no tem nada a ver com sua personalidade. Acontece que, em minha
famlia, uma estudante de arte  algo to estranho que eles no havero
de querer tomar conhecimento de voc e ficaro muito ressentidos pelo
fato de eu despos-la.
- Acho maravilhoso o fato, de voc querer casar comigo, Pierre. Talvez
no entenda... mas... tenho de lhe dizer no!
Pierre naturalmente haveria de querer saber as razes de sua recusa, mas
ele riu subitamente, apertando Simonetta de encontro a si.
116
- Voc est pensando novamente em mim e eu a amo por isso.  impossvel
que exista uma criatura mais maravilhosa e menos egosta do que voc.
Garanto, porm, que sua atitude  desnecessria.
Pela primeira vez naquela noite ele a beijou na boca, antes de
prosseguir.
- No tenho a menor inteno de ouvir suas explicaes. Voc me pertence
e pretendo despos-la. Ser minha esposa e, por maiores que sejam as
dificuldades daqui por diante, a magia de nosso amor nos tornar
totalmente protegidos contra o que as pessoas disserem ou fizerem, a fim
de nos magoar.
- Oh, Pierre... no posso me casar com voc! Por favor,  preciso que me
oua, antes de prosseguir.
- Hoje  tarde mandei-a embora, pois pensava em voc e era-me
insuportvel v-la to infeliz. Agora sei que voc s estar protegida se
eu estiver a seu lado.
Mais uma vez ele a beijou, silenciando as palavras que Simonetta queria
dizer.
- Sei que vivermos separados  absolutamente impossvel. Ns nos
casaremos imediatamente e, quando voc for minha esposa, eu a protegerei
e a adorarei, enquanto estivermos vivos.
Era uma promessa to comovente que, por alguns momentos, Simonetta no
conseguiu dizer nada.
Sua angstia aumentava cada vez mais e sabia que teria de contar a
verdade a Pierre. Por mais profundo que fosse o amor deles, por mais que
precisasse daquele homem, jamais lhe permitiriam que o desposasse.
Simonetta respirou fundo. Sabia o quanto eram difceis suas explicaes,
mas Pierre se manifestou primeiro:
- Meu anjo, no sou Pierre Valry, conforme voc pensa. Meu verdadeiro
nome  Montreuil. Preciso ser honesto e confessar-lhe que sou o duque de
Montreuil!
Simonetta conteve um grito. No conseguia acreditar no que tinha acabado
de ouvir e achava que estava sonhando.
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- Agora voc sabe a verdade e no quero que receie nada. O que quer que
nos acontea daqui por diante, eu a amarei e a protegerei.
Ele inclinou a cabea,  procura dos lbios dela, mas Simonetta comeou a
chorar. Tinha se controlado durante muito tempo, mas final mente o
alvio, depois de tudo o que sofrera, a fez perder o controle.
As lgrimas escorreram por seu rosto e ela, apoiando a cabea no peito de
Pierre, chorou sem parar, expulsando todo o sofrimento.

CAPITULO VII

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- Agora est tudo bem, meu anjo, agora est tudo bem! - disse Pierre,
enquanto Simonetta, sem o menor sucesso, procurava dominar sua emoo.
Suas lgrimas a aliviavam e eliminavam a infelicidade, a frustrao e o
desespero que tanto a atormentavam. Alm do mais, o conde a aterrorizara
e ela tinha a impresso de que aquele dia havia sentido todas as emoes
que um ser humano pode experimentar. Agora tudo tinha chegado ao fim e
Simonetta mal podia acreditar
no que estava acontecendo.
- Agora est tudo bem - repetiu Pierre. - Ns nos casaremos e jamais
permitirei que meu anjinho volte a ser infeliz!
- Mas eu sou feliz. Sou feliz, Pierre. Julguei que seria impossvel
casar-me com voc.
- Voc ser minha esposa e jamais permitirei que volte a chorar
desse jeito.
Pierre comeou a beij-la, removendo as lgrimas de seus olhos, de
seu rosto e, finalmente, de seus lbios.
Diante daquelas provas de amor, Simonetta sentia-se reviver. Mais
119
uma vez Pierre a transportava para o cu e era uma emoo muito grande
estar to prxima a ele, pertencer-lhe...
- Eu o amo... eu o amo... eu o amo! - dizia seu corao. De repente
Simonetta lembrou-se de contar-lhe quem ela era e
por que poderia despos-lo.
- Pierre...
Nesse exato momento ouviram-se passos na estrada.
Simonetta e Pierre ficaram muito tensos, achando que um dos criados do
conde os tinha localizado.
Subitamente, caminhando pela estrada, surgiu a figura imponente do duque.
A jovem desprendeu-se dos braos de Pierre e se ps a cham-lo.
- Papai! Papai!
Ela falava em voz baixa, pois ainda receava que o conde estivesse por
perto. O duque parou onde estava e Simonetta percebeu que Pierre tinha
ficado muito tenso.
- Papai! - ela repetiu, num tom ainda mais baixo.
- Simonetta! Onde  que voc est? O que est fazendo aqui? Simonetta
saiu do Templo e seu pai aproximou-se rapidamente.
- O que aconteceu? Por que no est em casa? O que faz aqui? Pierre
surgiu ao lado dela e o duque mostrou-se rspido.
- Quem  este homem? - perguntou com severidade,
- Oua, papai. Depois que voc foi para a aldeia o conde de Lavai chegou
numa carruagem com dois homens. Pretendia levar-me embora, por meio da
fora.
Simonetta gaguejava e seu pai a encarava com assombro, como se no
conseguisse acreditar no que tinha acabado de ouvir.
- Queria lev-la embora? Mas o que voc quer dizer com isso?
- No fale to alto, papai! O conde e seus homens talvez ainda estejam em
nossa casa. Tive de pular pela janela e, como estava aterrorizada, o
duque de Montreuil me protegeu...
- Mal posso acreditar! - disse o duque, indignado.
-  verdade, senhor - confirmou Pierre.
120
 - O senhor  o duque de Montreuil? Conheci seu pai. Costumavamos
caar juntos.
Simonetta notou o quanto Pierre tinha ficado surpreendido e uma
grande alegria tomou conta de todo seu ser.
- No disse ao duque quem somos, papai.
- No havia a menor razo para que ele soubesse - disse o duque, um
pouco irritado por ter de revelar seu segredo. - No entanto,
sinto-me grato, se ele foi suficientemente corajoso para proteg-la
daquele impiedoso Lavai.
- Eu tambm - murmurou Simoneta.
- Obrigado - disse o duque para Pierre. - No quero ser reconhecido em
Ls Baux, mas saiba que sou o duque de Faringham!
Pierre ficou to espantado que Simonetta no pde deixar de rir. Ao mesmo
tempo, sentia profunda gratido e viu-se arrebatada aos cus, onde o coro
dos anjos entoava canes de amor, semelhantes s dos trovadores.
Simonetta estava no quarto, contemplando-se no espelho. Ser que Pierre a
julgaria suficientemente bela para poder usar o ttulo de condessa de
Montreuil?
Tinha dispensado a governanta e as criadas que a vestiam, pois ainda era
cedo e seu pai no deveria estar pronto para lev-la at a capela.
Desejava ficar a ss durante alguns minutos, a fim de pensar na
felicidade que a aguardava.
Julgou um dia que tal felicidade jamais lhe pertenceria. Agora tudo lhe
parecia um maravilhoso conto de fadas e todas as dificuldades que
cercavam aquele casamento tinham sido removidas como que por um passe de
mgica.
Podia entender a apreenso de Pierre diante da atitude da famlia, da
mesma forma que seu pai recusaria categoricamente seu consentimento para
d-la em casamento a um pintor impressionista.
A famlia de Pierre era aristocrtica, imensamente orgulhosa e fazia
muita questo de conservar suas tradies.
Se tivesse ido ao castelo da Normandia casada com o chefe da famlia,
todos os parentes dele estariam sem dvida dispostos a lhe criar
121
tremendas dificuldades, pois na certa achariam que Pierre tinha feito um
casamento indigno.
Mesmo que eu estivesse ao lado de Pierre, seria intolervel ser
desprezada e tratada com indiferena para o resto da vida, pensou
Simonetta.
No entanto, sendo ela filha de um duque, cuja famlia gozava na
Inglaterra de tanta distino quanto os Montreuil na Frana, Simonetta
fora recebida de braos abertos.
A famlia de Pierre deixou muito claro que estavam todos encantados com o
fato de ele se casar. Finalmente teriam um herdeiro e o nome dos
Montreuil, que vinha da poca de Carlos Magno, no se perderia.
- Isso me parece um tanto injusto, pois qualquer que seja meu nome,
afinal de contas eu sou eu - dissera Simonetta.
- No duvido, meu anjo, que, com o correr do tempo, toda minha famlia
comeasse a am-la. No entanto no se pode modificar a natureza humana.
Se pudermos tornar mais curto o caminho que leva  felicidade, por que
no faz-lo?
- Voc estava decidido a no se casar comigo e eu, por outro lado, sabia
que jamais receberia a permisso de desposar Pierre Valry.
- Creio que mesmo que o mundo inteiro se aliasse contra ns, ainda assim
o amor teria triunfado, pois ele  um poder maior do que tudo, meu amor.
Estou disposto a cair de joelhos e agradecer aos cus, ao destino e at
mesmo ao conde, pelo fato de termos descoberto, antes que fosse tarde
demais, que poderamos nos casar, com as bnos de todos aqueles que nos
amam.
- E se voc tivesse ido embora? Mesmo que o conde no tivesse me levado
para Paris, papai teria embarcado comigo para a Inglaterra e jamais
voltaria a v-lo!
Pierre abraou-a com tanta fora que ela mal conseguia respirar.
- Voc no deve pensar nisso. Pertence-me e, se algum homem tentar tocar
em voc, juro que o matarei!
Pierre ps-se a beij-la com paixo, a tal ponto que seus lbios chegaram
a machuc-la. Simonetta sabia que ele agia assim porque receava perd-la.
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Tinha sido muito difcil explicar a seu pai que o duque de Montreuil, que
a salvara das mos do conde, era o homem a quem ela amava de todo corao
e a quem queria desposar.
O duque e Pierre, usando muita cautela, tinham ido na frente dela at a
casa, verificar se o conde havia desistido da perseguio, voltando para
seu castelo.
Depois, eles conversaram animadamente, e, aps condenarem com a maior
indignao o abjeto comportamento do conde, tornaram-se amigos.
Na manh seguinte partiram todos na mesma carruagem e viajaram juntos at
Paris. Pierre foi para sua casa e o duque e Simonetta hospedaram-se no
mesmo hotel onde tinham estado antes.
- No tenho a menor vontade de ver meus conhecidos e insisto em no
revelar minha verdadeira identidade enquanto estiver na Frana - declarou
o duque. - Caso contrrio no poderei mais voltar para c e pintar com
meus amigos impressionistas, coisa que me d tanto prazer.
- Compreendo perfeitamente - disse Pierre, sorrindo. Aprendi muito com
eles pois me aceitaram como Pierre Valry. Eles jamais se sentiriam 
vontade com o duque de Montreuil.
- Pierre disse que gostaria muito de ver nossos quadros l no castelo,
papai. Voc no quer convid-lo para passar alguns dias conosco, antes de
partirmos para Londres?
 - com todo prazer, mas tem de ser o mais breve possvel, pois Simonetta
deve ser apresentada  Corte no incio do ms que vem.
- Para falar a verdade, estava tentando encontrar uma oportunidade de ser
convidado ao castelo de Faringham, a fim de ver sua coleo, que goza de
grande fama. Sinto tambm profundo interesse por seus quadros, senhor
duque.
O duque ficou encantado e, quando Pierre anunciou que chegaria ao castelo
dentro de quatro dias, no notou o quanto os olhos de Simonetta
brilhavam.
Felizmente tambm no notou que ela tinha segurado a mo de Pierre, numa
atitude de grande ousadia.
Da a quatro dias, conforme o combinado, Pierre chegou ao castelo.
123
 tarde, quando Simonetta foi acompanh-lo em um passeio a cavalo, eles
pararam no meio do bosque. Amarraram os cavalos no tronco de uma rvore e
ficaram a se contemplar, at Simonetta atirar-se nos braos de Pierre.
Ele a beijou com ardor e ela teve a sensao de que estava de volta a Ls
Baux.
- Eu a amo! Eu a amo! - ele disse, quando teve condies de falar. - No
podemos continuar assim. Hoje  noite pedirei a seu pai a permisso para
despos-la.
-  cedo demais...
- Tive a sensao de que se haviam passado sculos, antes que eu voltasse
a v-la. Est muito enganada, se acha que posso voltar para a Frana e
ficar l esperando que voc resolva se tornar minha mulher.
- Tenho certeza de que se voc conversar com papai como um verdadeiro
pintor impressionista, ele entender que o amor  primeira vista  to
possvel quanto o fato de no existir o negro na caixa de tintas de um
impressionista... - observou Simonetta com um sorriso.
- Oh, meu anjo, que sorte temos e como somos felizes! J no preciso mais
me preocupar com o fato de que minha famlia a tornaria infeliz, ou que
seu pai pensasse que no sou digno da filha dele.  bem verdade que no a
mereo! No existe ningum neste mundo  altura de algum to bela e
perfeita quanto voc, minha adorada. Mas acredite em mim: nenhum homem
poderia am-la mais do que
a amo.
- Oh, Pierre, eu o amo tanto e eu tambm me sinto agradecida... Por
favor... por favor... casemo-nos o mais breve possvel!
Inicialmente o duque ficou surpreendido por tudo ter acontecido com
tamanha rapidez, mas Pierre demonstrou grande eloquncia, declarando que
no conseguia suportar  tortura do cime ou o receio de que Simonetta
acabasse por esquec-lo ao conhecer algum a quem amasse mais do que a
ele.
Alm de sentir que sua filha tinha feito a escolha certa, ele sabia
124
muito bem que o duque de Montreuil era um homem muito rico e possua
imensas propriedades na Frana.
Na realidade, Pierre era um excelente partido e qualquer pai sentiria
grande prazer em que ele se tornasse seu genro.
Isso, porm, no tinha tanta importncia assim, pois o duque percebia
muito bem que Simonetta estava profundamente apaixonada. Nunca a tinha
visto to feliz, e, finalmente, acabou por concordar. O casamento foi
marcado para trs semanas aps a apresentao de Simonetta  Corte.
A famlia Montreuil veio de todas as regies da Frana. Como eram
catlicos, a cerimnia teria lugar em uma capela situada no parque do
castelo.
Contemplando-se no espelho, Simonetta pensou que a capela, por ser muito
pequena, acolheria somente os parentes mais chegados. Os demais
convidados j se encontrariam no salo de baile. O dia estava belssimo e
vrios deles passeavam pelos jardins. Enquanto bebiam champanha,
aguardavam a chegada dos noivos.
Mais tarde Pierre e Simonetta cortaram o enorme bolo, que as cozinheiras
do castelo vinham preparando havia uma semana.
No parque foi armado um grande toldo, sob o qual os empregados e os
moradores da aldeia se reuniriam, a fim de tomar cidra e cerveja, alm de
comer deliciosos petiscos.
Haveria ainda numerosos discursos e brindes. Os noivos teriam de apertar
centenas de mos e ouvir os votos de felicidade.
Simonetta, entretanto, s conseguia pensar no momento em que ela e Pierre
ficariam livres de tudo aquilo e estariam a ss.
Aquela noite, a caminho da Frana, dormiriam em Dover, numa casa
pertencente a um dos parentes da noiva. No dia seguinte atravessariam o
canal da Mancha e desembarcariam no pas de Pierre. Este recusou-se a
dizer a Simonetta para onde iriam, mas ela tinha certeza de que seria a
Provena. L iriam ao encontro da luz que tanto significava para eles.
No seria certamente Ls Baux, devido s ms recordaes trazidas pelo
conde, mas Simonetta tinha a sensao de que estariam bem prximos de l.
125
Ento ambos presenciariam o belo espetculo daquela luz mgica que,
conforme dizia Pierre, inundava suas almas e seus coraes, e agora fazia
parte deles.
- Pierre  to maravilhoso! - murmurou Simonetta.
Bateram  porta e isto significava que o duque estava  sua espera para
lev-la at a capela.
- J vou!
A jovem cobriu o rosto com o vu e havia um sorriso de felicidade em seus
lbios, quando ela pegou o lindo buque de noiva e foi ao encontro de seu
amado.
Reinava o mais completo silncio quando Simonetta ps de lado os lenis
que a cobriam e levantou-se da cama.
Seus ps nus tocaram o tapete macio e ela foi at a janela, afastando a
pesada cortina de veludo.
Conforme esperava, a paisagem estava banhada pelos raios prateados da
lua.
O lago diante dela parecia um espelho e refletia as luzes das estrelas.
Comovida, ficou a contemplar toda aquela beleza, at ouvir uma voz a seu
lado,
- Meu amor, eu a quero tanto...
- Julguei que voc estivesse dormindo...
- Como posso dormir, quando s consigo pensar em voc? Simonetta,
sorrindo, voltou-se para Pierre e ele percebeu seu corpo
esguio por debaixo da leve camisola de seda. - Venha c... - ele disse
baixinho.
- No... Venha espiar o luar, Pierre.  to belo! Recorda-me aquelas
noites em Ls Baux. Creio que a lua sempre significar algo precioso para
ns!
Pierre tomou-a nos braos, num gesto de grande carinho.
- Veja s! No  lindo?
- Estou vendo, mas devo dizer que voc  a criatura mais bela que vi at
hoje!  tambm minha esposa e sinto cimes quando voc no est pensando
em mim.
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- Voc ficaria muito convencido se soubesse o quanto penso em sua
pessoa.  impossvel pensar em mais algum.
- Ainda assim voc  desobediente, pois eu a chamei e voc no veio...
- Queria ver o luar.
- No estou interessado no luar, mas em voc, minha adorada!
- Oh, Pierre... eu o amo! No tinha a menor ideia de que o amor pudesse
ser algo to forte, to excitante e, ao mesmo tempo, to cheio de
ternura...
- No tem medo de mim, meu anjo?
- E por que haveria de ter? Para mim voc significa segurana. Enquanto
estiver em seus braos ningum poder me atingir.
- Simonetta, ainda receio que voc possa desaparecer, como aconteceu
quando a vi pela primeira vez.
- E eu receei que voc pudesse me deixar, conforme tentou fazer. Ento me
restariam apenas momentos de amor, para eu recordar.
- Agora esses momentos se tornaram um s, minha esposa querida. Viveremos
juntos e nada mais ter importncia em nossas vidas. Voc acredita nisto?
- Quero acreditar, e ainda assim, hoje, dia de nosso casamento, eu
receava que algum pudesse nos separar ou que voc mudasse de ideia no
ltimo momento e deixasse de me amar.
- Oh, meu amor, isto  to impossvel quanto as estrelas despencarem do
cu e a lua deixar de brilhar. J se esqueceu de que somos pintores
impressionistas? Encontramos a luz e agora ela nos pertence para sempre.
- Para sempre - murmurou Simonetta.
- Hoje, amanh e para toda a eternidade eu a amarei, eu a adorarei. Nossa
luz aumentar tanto que ela nos guiar em direo ao cu.
- Oh, Pierre, se voc acredita nisso, ento cabe a mim acreditar tambm!
Eu o amo! Eu o amo de todo corao!
- Da mesma forma que eu a amo... Voc me pertence. Seu corao, sua alma,
sua mente e seu corpo to excitante, tudo isto  meu, minha adorada!
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Seus lbios colaram-se aos dela e Simonetta sentiu o ardor que consumia o
corpo de Pierre. Sabia que aquilo tambm fazia parte de seu amor.
Seus corpos se uniram cada vez mais e o luar pareceu tornar-se mais
forte, somando-se  fora da luminosidade que se irradiava daquelas duas
criaturas.
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
